Agora que nos aproximamos da mudança final de Plutão de Capricórnio para Aquário, decidi que era uma altura interessante para escrever algumas análises horoscópicas que se relacionam com as perceções da vida depois da morte e temas associados. Um tema que sempre me interessou, se calhar por definir tanto das nossas obsessões religiosas, é o inferno. Até hoje vemos uma quantidade de discursos intensos e impiedosos que giram em torno da noção de condenação ao fogo eterno. No Brasil, por exemplo, isto é um elemento definidor dos discursos cristãos (em particular evangélicos). É estranho pensar que o inferno nem sempre foi uma ideia unânime no contexto cristão, e que a sua consolidação final ocorre apenas no século V com a obra de Santo Agostinho.
Santo Agostinho foi um infernalista ferrenho, interpretou a escritura da forma menos generosa possível em tudo o que se refere ao destino dos “infiéis” depois da morte, e insistiu que pagãos, pecadores e bebés não batizados populavam os mares de fogo eterno, vítimas perpétuas do verme que não dorme. O inferno tem um poder bizarro na minha imaginação – não fui criado cristão, não fui ameaçado com ele em criança, mas há algo na própria obscenidade da ideia que me perturba. As leituras católicas mais modernas, do inferno enquanto estado da alma separada de Deus, não diminuem o dilema que se coloca com a ideia de que certos erros numa vida finita (e repleta de contingências) podem resultar numa separação eterna. E que essa separação eterna resulta de uma escolha errada num mundo em que essa escolha só poderia ser feita com base na fé.
Alguns teólogos modernos, como David Bentley Hart, afirmam que as doutrinas infernalistas de Agostinho se baseiam no seu pobre conhecimento de grego, e numa incompreensão fundamental dos argumentos de Paulo nos seus textos. Eu quis olhar para o mapa de Agostinho em busca de uma assinatura interessante para esta consolidação do inferno enquanto destino das almas. Não temos hora mas temos dia e o lugar, o que é excelente para alguém da época.
Estive indeciso entre que mapa usar. Em casos deste tipo costumo usar o mapa da lunação pré-natal (SAN). O mapa SAN de Agostinho é radical e interessante, com Neptuno a culminar exatamente no meio do céu – algo importante para o pensador que viria a definir grande parte de tudo aquilo que consideramos ser o cristianismo hoje em dia. No entanto, chamou-me imediatamente a atenção que uma conjunção aplicativa entre Marte e Júpiter chegaria a um nível brutal de exatidão na data de nascimento de Agostinho, um movimento maravilhosamente adequado ao Deus castigador e aos fogos do inferno. Quis, por isso, usar um mapa do dia.
Uma estratégia aceitável (e convidadora da fúria dos tradicionalistas mais severos) seria usar um mapa de signo solar. O mapa de signo solar foi inventado no século passado por Richard Harold Naydler e é uma ferramenta engenhosa para quando não há hora. O signo solar é tomado como o signo da casa 1 e o restante do mapa é desenhado num esquema de signo inteiro, em que cada signo é uma casa. É uma forma rápida de produzir simbologia interpretável num horóscopo que de outra forma não a teria. Não quero perder tempo com uma justificação metodológica neste momento, mas vejam as notas no fim onde faço isso. Os dados utilizados foram 13/11/354 (jul.), 00:00, Souk Ahras, Argélia.
O árbitro final da minha astrologia é sempre a radicalidade do mapa, e este mapa é realmente radical. A conjunção Júpiter-Marte está na 10 em Leão – uma imagem de autoridade divina furiosa e fulminante. Júpiter rege a casa 2, que tem associações antigas com o mundo dos mortos, e Marte rege a casa 1, simbólico da autoridade divina e condenadora dispensada pelo próprio autor.
Ambos os planetas afligem Mercúrio, regente da 8, por quadratura. Mercúrio, psicopompo tradicional e senhor da casa dos mortos, está no submundo escorpiónico. Queimado pela combustão do Sol num signo fixo e afligido pela justiça divina de Júpiter-Marte: condenado a um inferno eterno. A receção mútua do Sol e Marte mostra a conivência secreta do autor (Marte, regente da 1) e da autoridade eclesiástica (Sol regente da 10) – não só o inferno é eterno como será uma arma eterna para o domínio do mundo através do medo.
Mercúrio é também senhor da 11, do bom daimon, e revela que a repreensão de Santo Agostinho não se limita às almas dos mortos. A palavra “demónio” utilizada hoje para descrever espíritos imundos e maléficos tem origem na palavra grega daimon. Os daimones eram espíritos intermédios que poderiam ser bons ou maus. Agostinho destrói esta conceção na Cidade de Deus, argumentando que a ambiguidade espiritual é impossível. Um espírito ambíguo precisa ser, por definição, mau. Mas o daimon era também a divindade tutelar que cuidava de cada pessoa, o seu anjo da guarda, Orí ou guia. Também esse daimon da 11 é atirado para o inferno juntamente com os mortos.
Mas o mapa esconde um segredo – a fúria moral de Júpiter vem da 5, da qual Júpiter é senhor. Peixes como casa 5 é excessivamente sugestivo para um santo, e quem conhece Agostinho sabe que isto é verdade. Nas suas Confissões, Agostinho descreve como é atormentado por sonhos das suas orgias do passado e como apesar do seu arrependimento e dedicação a Deus todos os seus pecados carnais regressam para o atormentar na noite. Reparem na Lua conjunta a Plutão na 5. Lua rege a casa 9 dos sonhos. Aquilo que é reprimido, pecaminoso e horroroso (Plutão) manifesta-se na impureza sexual (casa 5) dos sonhos (Lua, regente da 9) de Agostinho. Em linguagem psicanalítica, este retorno do reprimido é deslocado e projetado para a promessa da danação eterna (Júpiter regente da 5 como leitmotiv da configuração infernal).
Mas o movimento da Lua revela algo mais interessante do contexto da transição dos espaços post mortem nos primeiros séculos da nossa era. A palavra usada no Novo Testamento para descrever aquilo a que chamamos de inferno hoje é, frequentemente, hades. Isto faz referência a uma conceção mais antiga de um mundo dos mortos que não é um lugar de recompensa ou castigo, mas um espaço “oceânico” para onde todos os mortos vão habitar quando abandonam a vida, do mesmo modo que habitam o mundo dos vivos em vida. A conjunção da Lua com Plutão em Peixes é altamente sugestiva deste mundo dos mortos (Plutão) que é igualitário (Peixes) para todas as almas (Lua). Mas a Lua separa-se de Plutão e está vazia de curso. Na verdade, a Lua vai abandonar Peixes ainda no dia em que Agostinho nasce e dirigir-se para a quadratura de Saturno assim que entrar em Carneiro. Saturno, senhor da 4 exilado, é uma outra assinatura perfeita para este submundo caído do inferno. A Lua, num signo de fogo, arde.
Para além da receção mútua entre o Sol e Marte, este mapa tem pouca dignidade em geral. Não existe quase nada acima da triplicidade e Saturno está exilado. A única exceção é, claro, a Vénus. Vénus está em Balança, mas amaldiçoada na 12. A maldição deixada para a posteridade por Agostinho deita no lixo o seu tesouro. Vénus, altamente dignificada e senhora da 12, sugere que muito daquilo a que Santo Agostinho chama “demoníaco” não é de todo tão mau como parece. Vénus é também senhora da 7, casa dos outros e dos amantes, e é isso que Agostinho condena: toda a gente que não é como ele. Vale a pena referir que Santo Agostinho viveu um amor trágico. Depois de ir estudar para Cartago e de se converter ao maniqueísmo passou 15 anos com uma mulher com quem teve um filho mas com quem nunca casou. A sua família acabou por obrigá-lo a abandonar esse grande amor. O que sobrou desse amor, o filho, durou pouco. O adolescente morreu jovem, antes de completar 20 anos de idade. O seu grande amor foi atirado para a 12, a morte do filho manifestou a tragédia implícita na conjunção da Lua e Plutão na 5.
A quadratura de Vénus com Neptuno é imensamente sugestiva de que Agostinho não está a ver esta Vénus com clareza. Ela está mergulhada num espaço bizarro de idealização ou nebulosidade, manifestada ou na sua vida boémia e excessiva ou na sua negação total do outro como sujeito digno de salvação. Mas a Vénus contém um outro aviso: como senhora da 7, e seguindo a lógica de muita da tradição, ela pode também ser o próprio astrólogo a interpretar o mapa.
A história aí torna-se diferente e contém um alerta. Este tipo de textos não deve ser tomado como uma forma de reduzir e desacreditar o trabalho de alguém. A astrologia joga com símbolos mas não revela uma verdade totalmente exterior ao sujeito. Ela revela ao astrólogo participante algo que pertence ao mundo do astrólogo. Mas aqui estou eu, Vénus domiciliada a pronunciar decretos dos céus tal como Agostinho fez. O mapa não esconde a minha verdadeira motivação: domiciliado mas na 12 – podes saber toda a astrologia do mundo, mas a tua crítica continua a ser baseada na neurose (12) que as tuas escolhas heréticas (12) produzem frente a frente com a crítica de titãs intelectuais como Santo Agostinho.
Vénus não vai escapar da quadratura a Neptuno, mostrando que quem se atreve a tocar no tema da vida depois da morte navega sempre em águas incertas. A minha esperança de uma vida depois da morte oceânica e igualitária (Neptuno) não elimina o potencial para o engano do planeta. O encontro é, afinal, por quadratura. Mas há uma nota de esperança. Vénus vai inevitavelmente encontrar-se com a conjunção Júpiter-Marte por sextil, depois de receber a oposição da Lua, senhora da 9. A oposição mostra que há poucas hipóteses de conversão, mas o herege encontra na fúria divina da voz do santo mais gentileza do que se poderia imaginar. Que este sextil sirva de esperança para uma reconciliação das feridas abertas pela quadratura.
Notas sobre a Metodologia
Como disse, o árbitro final da minha astrologia é sempre a radicalidade do mapa. Na minha prática sigo a filosofia da Companhia dos Astrólogos e do Momento da Astrologia de Geoffrey Cornelius em que o central para o mapa não é ser o começo objetivo de algo mas a atribuição relevante de um significado. Isto quer dizer que dois fatores fundamentais precisam de ser considerados:
1- A atribuição deve ter um sentido e não ser absolutamente aleatória.
2- O mapa deve resistir ao teste de técnicas convencionais de astrologia.
Escolhi este mapa com base nos seguintes princípios:
1- Dia e local de nascimento do Santo.
2- Sistema que permite o uso de simbologia de casas e que tem sido o principal sistema usado para a divulgação da astrologia no último século.
3- Meia noite por ser o começo do dia civil romano e mostrar a posição mais precoce que a Lua poderia ter no mapa de Agostinho.
Testei o mapa com progressões secundárias e trânsitos e fiquei satisfeito. Não querendo fazer um estudo biográfico exaustivo, vou dar alguns exemplos. Os exemplos são necessariamente um pouco latos porque não temos muitas datas precisas:
No ano em que começa a sua relação ilícita, a Lua progredida faz conjunção ao Sol natal e a Vénus progredida entra em escorpião (o equivalente a fazer conjunção ao Ascendente nesta técnica).
Em 375 funda uma escola de retórica em Cartago e Lua progredida fica conjunta a Neptuno na 3.
Em 385, quando é obrigado a abandonar a amante, a Lua progredida está oposta ao Sol natal representando o fim do ciclo começado com a Lua progredida conjunta ao Sol natal do início da relação.
Em 391 é ordenado padre enquanto a Lua progredida atravessa a conjunção de Júpiter-Marte.
Em 395 é feito Bispo quando a Lua progredida faz sextil a Júpiter-Marte.
Começa a escrever as Confissões entre 397-398 enquanto a Lua progredida cruza a conjunção Sol-Mercúrio
Em 408, os Visigodos invadem o Império Romano, evento que o leva a escrever A Cidade de Deus. Lua progredida está conjunta à sua conjunção Lua-Plutão natal. (Repara que Lua rege a 9 – visigodos representados como os “estrangeiros selvagens”)
Quando a Lua faz sextil a Marte-Júpiter começa a sua discussão pública com Pelágio, que acabará por ser considerado um herege.
Em janeiro de 417 o pelagianismo é condenado pela Igreja, a Lua aplica-se a um trígono estreito com Plutão.
Na data exata em que o Concílio de Cartago condena Pelágio e expulsa os seus seguidores da cidade de Agostinho, a Lua está a 1’ da conjunção com Marte (reparem na ligação de Marte-Júpiter com temas de condenação).
Um exemplo de um trânsito interessante à Lua é a conjunção de Urano à Lua-Plutão natal no período das derrotas sucessivas de Pelágio.
Há muito mais direções radicais e interessantes mas foquei-me nas da Lua para deixar um argumento convincente de que a sua posição apresenta resultados válidos de acordo com técnicas convencionais de astrologia. Por exemplo, em 413 quando começa a escrever a cidade de Deus, Mercúrio progredido está sextil a Mercúrio natal. Mas isto mudaria pouco caso ele tivesse nascido várias horas mais tarde.
Quem tiver interesse pode ler mais sobre a cronologia da vida de Santo Agostinho em https://websites.umich.edu/~rdwallin/syl/GreatBooks/202.W99/Augustine/AugustineChron.html




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