Giralomo Cardano foi um astrólogo italiano do século XVI. Os seus aforismos foram muito importantes na tradição astrológica do renascimento tardio, e perduraram especialmente porque William Lilly traduziu uma compilação deles para o inglês que ainda hoje circula bastante entre estudantes de astrologia tradicional. No entanto, um dos grandes tesouros que Cardano nos deixou foi o seu livro Cem Genituras, hoje parte do Libelii Quinque. Tanto quanto sei este livro não está traduzido para nenhuma língua moderna, algo que dificulta o acesso do astrólogo contemporâneo à horoscopia prática do Renascimento. O livro contém uma mistura de mapas de famosos, como o Martinho Lutero, o Erasmo de Roterdão ou o Francisco Petrarca, mas também contém vários casos privados. É nestes casos privados que temos uma janela interessante para a bizarria cultural renascentista: infidelidade, partos monstruosos, nativos endemoniados, efeminados, loucos. Cada natividade é acompanhada de uma pequena resenha onde Cardano tenta encontrar assinaturas relevantes para a vida do nativo.

Neste texto vou partilhar uma tradução da resenha sobre um homem que foi morto depois de ser encontrado na cama com uma mulher casada. O texto é longo e tem vários comentários técnicos interessantes do ponto de vista preditivo e da significação da personalidade a partir do ascendente, mas neste comentário vou-me focar nas assinaturas do mapa que se referem ao amor proibido do nativo. Segue o texto integral da genitura 25, entitulada “Baptistae Pagani casus rarus” no índice e “Baptistae Pagani” na secção do texto:

“A nobreza e a mesma causa de morte fizeram com que eu conectasse este caso à mulher anterior. Assim, o regente do horóscopo, Saturno, está exilado em Caranguejo e conjunto  a Júpiter, inimigo do Ascendente, sendo também o regente da sétima casa, que quase sempre é o significador da morte, ambos em quadratura com Vênus; ela, por sua vez, está no domicílio de Marte e exilada; além disso, o Sol está conjunto a caput Algol, e Mercúrio está em quadratura com Marte na sétima casa. Tudo isto indicava que seria absolutamente impossível que ele não morresse pelo ferro, pois pelo menos dois desses testemunhos demonstram isso de forma indubitável. Assim sendo, no 23º ano, quando o Ascendente se aplicou simultaneamente à quadratura de Marte e Mercúrio, e na revolução a Cauda do Dragão estava no Ascendente, e o próprio Ascendente estava no signo da sétima casa, com uma infortúnia, e a Lua no grau 22º de Carneiro, conjunta ao Saturno da revolução, e à posição de Vênus na genitura, em quadratura com Saturno e Júpiter, Júpiter, por sua vez, estava em conjunção com Mercúrio e também combusto com ele (já que aquele estava a uma distância de 3 graus do Sol, não havia escapado dessa grande conspiração dos astros contra si). Marte, junto da estrela Aldebaran, estava localizado na casa 12. Ele foi encontrado na cama, à meia-noite, com a mulher por quem era perdidamente apaixonado; ambos foram mortos nus pelo marido dela, com grandes ferimentos. Ele ficou caído até ao dia seguinte, sendo que aquele que o matou era um homem nobre. Isso ocorreu próximo ao dia 26 de julho de 1526. Além disso, este jovem infeliz tinha uma cor levemente escura: pois assim são todos aqueles que nascem sob Capricórnio nas nossas regiões, mesmo que Vênus estivesse com ele. De modos refinados, dedicado à música, devido aos aspectos de Vênus com Saturno e com o Ascendente; fogoso, mas não muito inclinado aos estudos, elegante e lascivo. Por outro lado, se o Ascendente for Touro, será dedicado ao trabalho, firme em suas opiniões e, geralmente, morrerá de uma morte violenta, por veneno ou pela espada. E, se for Capricórnio, será astuto, de cor levemente escura, e não terá gosto por estudos. E, se for Balança, será de ânimo dúbio e caráter duplo, pois Saturno e Vênus, planetas de naturezas opostas, dominam juntos neste signo. Às vezes totalmente entregue aos prazeres de Vênus, e outras vezes inclinado a assuntos sérios. De boa memória, por isso muito apto para aprender línguas. E se o Ascendente for em Peixes, será um pouco abatido e de ânimo espúrio. E se for Caranguejo estará no meio, será estudioso, mas extremamente instável, e, por isso, imperfeito.”

Este é uma das minhas natividades favoritas das que foram deixadas por Cardano. Ao início abordei-a devido a um erro linguístico, na esperança de que o nome Baptista Pagani pudesse ser uma referência a um evangelizador que tivesse batizado povos indígenas durante este período de colonialismo das Américas. Rapidamente entendi que não, que o nativo se chamava simplesmente Baptista Pagani. O que parece ser a principal razão para o interesse simbólico de Cardano é o escândalo em que o homem se envolve com uma mulher casada. No seu estilo meio desestruturado, Cardano oferece-nos três grandes formulações nesta análise: a primeira é um conjunto de testemunhos que levam à morte pela lascívia, a segunda é uma análise dos testemunhos de morte na revolução solar do nativo e a terceira é uma teoria interessante da ligação entre os traços de personalidade do Ascendente e os seus regentes por domicílio ou exaltação. Neste texto vou fazer uma apreciação crítica da primeira formulação

O nativo foi morto pela espada do marido da mulher por quem estava “perdidamente apaixonado”. O marido encontrou-os na cama e matou-os a ambos. Cardano encontra quatro argumentos na genitura para este desfecho:

1- Regente do Ascendente exilado (Saturno) conjunto ao regente da 7 por exaltação.

2- Ambos em quadratura a Vénus exilada num signo de Marte.

3- Sol conjunto a Algol.

4- Mercúrio em quadratura com Marte na casa 7.

Este é mais um dos casos em que é complicado negociar a perícia simbólica de Cardano e o seu moralismo latente. Cardano está interessado nos testemunhos de um escândalo e de uma morte violenta, e eles certamente existem, mas ele acaba por ignorar outros testemunhos igualmente interessantes. É inescapável ver uma assinatura poderosa para o fim trágico deste amor proibido na Vénus: Vénus está exilada na casa 4, uma das casas associadas à morte. Marte, seu dispositor, está conjunto à cúspide da casa 8, casa que representa a qualidade da morte. Vénus é regente da casa 5, associada ao sexo, e está a afligir o regente do ascendente e o próprio Ascendente por quadratura, acrescentando ao tom inauspicioso do seu exílio. O argumento da conjunção do Sol a Algol seria convincente se a conjunção fosse mais exata. Em 1504 Algol estava a 19º15’ de Touro, o que significa que estamos a falar de uma conjunção a uma estrela com uma orbe de 6 graus, dificilmente um argumento convincente por si só.

Mas a verdadeira tensão ideológica deste mapa joga-se na conjunção Júpiter-Saturno na casa 7. Cardano toma-a como símbolo da morte violenta porque a casa 7 se opõe ao Ascendente e porque Júpiter é “inimigo” do Ascendente, ou seja, tem lá a sua queda. Mas qualquer conjunção entre um regente do Ascendente e um regente do Descendente na casa 7 vai implicar a aflição essencial do regente do Ascendente, é uma inevitabilidade geométrica. Aquilo que para Cardano é um símbolo de morte pode ser retomado como um símbolo da vocação do nativo para o seu amor impossível. Na verdade, é preciso muita ginástica mental para transformar Júpiter exaltado num ângulo num testemunho de morte.

Apesar da distância, o próximo aspeto da Lua é um trígono a Júpiter com receção mútua por domicílio, um dos aspetos mais auspiciosos imagináveis. O homem poderá ser dado a excessos amorosos, fogoso, lascivo, emocional e apaixonado, mas nenhuma destas coisas são, em si mesmas, testemunhos de morte. O trígono poderá ter uma luz menos auspiciosa se considerarmos Júpiter como senhor da 12, mas ainda assim o aspeto entre ele e a senhora da 7 é simplesmente uma assinatura para um amor secreto, um affair que, apesar da sua intensidade, precisa de ser vivido longe do olhar do público. É difícil não ficar comovido com o poder deste Júpiter de derreter a tradicional secura saturnina.

Uma das coisas mais maravilhosas de dialogar de perto com a prática horoscópica concreta do século XVI, para lá da dimensão rasa dos aforismos, é precisamente entender que nós como astrólogos fazemos escolhas interpretativas que mudam completamente o entendimento do mapa. Longe de estarmos a lidar com a descrição de um destino imutável, estamos a trabalhar com uma técnica interpretativa que se desenrola nas tensões entre astrólogo, nativo e os auspícios que o céu nos deu. A linguagem que nós escolhemos também não é aleatória nem inocente. Cardano, partindo do seu entendimento católico contra-reformista, está particularmente interessado em demonstrar as consequências da queda moral na lascívia. O meu olhar moderno é muito mais gentil para com as motivações do nativo porque é mais romântico e permissivo, e influenciado por um século de luta feminista, por um interesse em não-monogamia e em movimentos LGBTQ, e pelas várias formas de libertação sexual que floresceram desde a segunda metade do século XX. Não é que a minha análise tenha encontrado o verdadeiro significado do mapa: a questão é que pontos de partida diferentes levam inevitavelmente a interpretações diferentes.

No fim das contas, a história é a mesma: o homem apaixonou-se, envolveu-se com uma mulher casada e foi assassinado como consequência do seu amor proibido. Mas só os astrólogos mais ingénuos e com menos domínio da arte acreditam que narram factos crus – Nós tecemos interpretações poéticas de auspícios, mas o verdadeiro significado dos auspícios pertence aos deuses e a mais ninguém. Uma atitude determinista não serve, mas uma atitude moralista também não. O asco de Cardano perante a lascívia ignora o simples facto de que é impossível viver o nosso destino sem quebrar tabús. Baptista Pagani morreu pela espada nos braços da mulher que amava perdidamente – teria ele escolhido outro fim se pudesse?

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Escrito por Simão Lourenço Ferreira Cortês

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