Quando eu comecei a misturar sonhos com astrologia, fi-lo simplesmente porque era apaixonado pelos dois temas. Acho que é natural para muitos de nós misturar a astrologia com coisas que nos apaixonam e geram interesse. Isto frequentemente acontece antes de estarmos...
O Talarico de Cardano
A deusa convida à rebelião contra o trauma e o desejo reprimido
Para Ficino, Vénus é uma das três graças, ou seja, um dos planetas que dá as melhores bênçãos aos humanos aqui na terra. E é fácil de entender: quem não gosta de sentir amor, desejo, rir e partilhar bons momentos com os seus amigos? Como senhora de todos os prazeres e de todos os desejos, Vénus promete de forma sedutora um mundo de delícias e encantos.
Mas a nossa relação com Vénus é uma relação complicada. Não é por acaso que a psicanálise dedica um esforço tão intenso à ideia de entender, elaborar e bancar o desejo. Na transição do paganismo para o cristianismo, as estátuas de Vénus e de Afrodite eram frequentemente as mais vandalizadas, por serem consideradas lascivas. Tertuliano, depois de exortar os seus fiéis a não participarem de nenhum espetáculo cultural, fala dos prazeres guardados para os fiéis que adiarem os seus desejos até ao juízo final:
“Então, os atores trágicos serão dignos de ser ouvidos, mais eloquentes na sua própria catástrofe; os atores cómicos serão então dignos de ser vistos, com os membros muito mais ágeis quando consumidos pelo fogo; o cocheiro será digno de ser visto, todo vermelho na sua roda de fogo; e os atletas serão dignos de ser observados, não nos seus ginásios, mas à mercê do fogo.” Tertuliano, De Spectaculis 30.05
Como seria possível que o nosso mundo tivesse uma boa relação com o desejo? Quando durante dois mil anos nos foi dito que a alegria e o desejo naturais de ver artistas e atletas performar era demoníaca? E quando nos foi pedido que reprimissemos esse desejo até ao dia do juízo final, onde poderíamos finalmente regozijar-nos no sadismo doentio de ver os pecadores desesperados e em chamas, excluídos da nossa própria salvação? A relação com o desejo de qualquer pessoa que nasceu neste mundo é traumática.
Dos 365 dias de 2026, Vénus vai passar um total de 72 dias no signo de Escorpião, o signo do seu exílio. Existe alguma coisa no céu que possa se parecer mais com desejo adiado? A maioria de nós vivemos vidas onde Vénus não tem espaço. Ser adulto é reconhecer um sem fim de exigências e obrigações que nos puxam em direções diferentes. Como diz o meme “quem transa é adolescente, adulto paga boleto”. As redes de afeto vão diminuindo, as nossas necessidades e desejos vão sendo postos de lado e as mágoas vão acumulando.
É difícil olhar para o desejo porque o desejo dói. Não só porque grande parte da imaginação religiosa da nossa sociedade pinta os nossos desejos como sujos, egoístas e pecaminosos, mas também porque o desejo nos vulnerabiliza. A vida pode facilmente tornar-se num acumular de amarguras e sofrimentos que bloqueiam a nossa capacidade de nos entregarmos com verdade ao amor. Cada coração partido, cada pequena castração que fizemos em nome do amor contribui para uma bagagem que não nos permite acessar as doçuras da deusa.
E este é um dos problemas quando lidamos com os benéficos: há qualquer coisa na forma como fomos educados que nos ensinou que eles não são uma prioridade. Pior ainda, que priorizá-los é o equivalente a quebrar a nossa aliança com Deus e com as nossas responsabilidades sociais. Por causa disto, mesmo parecendo os planetas mais gostosos, os benéficos tornam-se os planetas que nos geram mais neuroses e com os quais mais sofremos na nossa subjetividade.
Os movimentos da deusa no século passado costumavam dizer que “todos os atos de amor e de prazer são rituais da deusa”. Sempre que penso nesta frase quase consigo ouvir os coros de pessoas que afirmam que vivemos numa sociedade hedonista, que o capitalismo estimula o prazer pessoal e que na verdade estamos saturados da procura de prazer rápido. E isto é verdade, até certo ponto, mas o prazer rápido do capitalismo não é uma expressão verdadeira do desejo.
Há uns anos, eu trabalhava numa escola e estava à beira de um burnout por tentar gerir o meu doutoramento, a minha carreira de astrólogo e o meu trabalho de professor. Um dia, ao voltar para casa passei por uma hamburgueria que tinha um cartaz à entrada com o slogan “Go on, you earned it” (“Vamos lá, tu mereces”). O meu sentimento imediato foi um de raiva: como é possível que uma massa infinita de pessoas se mate a trabalhar todos os dias, muito além do que é saudável para o nosso corpo mamífero e pulsante, para no fim ouvir “mereces um lanche, vem”. Este exemplo tonto mostra como a nossa sociedade tem muito pouco de prazeroso. Aquilo que nos é dado é um conjunto de fantoches que operam em vez do desejo espontâneo e alegre que nasce da ligação com Vénus. Podes gastar o teu dinheiro em comida que te faz mal, podes passar o teu tempo a ver vídeos de curta duração no instagram, podes ter acesso à maior biblioteca de pornografia algum dia criada na história da humanidade. Vamos lá, tu mereces.
Entender o desejo é muito mais do que isso. É, acima de tudo, uma disciplina de contacto e relação com a deusa. É o cultivo de uma honestidade lúdica e espontânea que nos coloca em contacto com todas as coisas que à partida não pertencem às responsabilidades da vida adulta. É, acima de tudo, aceitar que o prazer e o desejo não devem estar no fim da lista de todas as coisas que temos para fazer. Eles não são a recompensa de um cachorro bem comportado, são a responsabilidade divina de cada corpo que habita brevemente este mundo maravilhoso.
A Vénus está exilada em Escorpião porque aí ela carrega o peso incomportável dos ressentimentos. É uma Vénus magoada, desiludida, compulsiva. É a deusa ctónica e furiosa que viu o desejo ser substituído por prazeres que ninguém verdadeiramente aprecia. É Ishtar nua, pendurada e torturada no submundo. Vénus em Escorpião é a Vénus que percorre o único caminho possível para ganhar a sabedoria necessária para renascer com o esplendor de uma deusa que não pode ser reprimida, e que se rebela contra todos os traumas que sufocam o desejo na nossa vida. Essa é a grande deusa que habita em cada ato de desejo transgressor que cometemos em desafio a um mundo desencantado.
Escrito por Simão Lourenço Ferreira Cortês
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