Jornadas Astrológicas de Outono

por | out 30, 2024 | Astrologia Horária, Astrologia Natal, Eventos | 0 Comentários

Os membros Duranki nas Jornadas: Isabel Parreira, Andrea Honaiser, eu, Paula Pereira, Paulo Torres e Luís Gomes.

Este fim de semana foi a sétima edição das Jornadas Astrológicas de Outono, um evento organizado pela equipa do Chá na Lua, os maravilhosos Alexandra Rua, Luís Gomes e Ana Filipa Monteiro. As Jornadas Astrológicas são um evento muito emocional para mim porque foram o primeiro evento astrológico a que eu fui enquanto astrólogo. Foram também onde conheci pessoas muito importantes na minha jornada astrológica, em particular a Luiza Azancot e o Carlos Hollanda. Queria escrever algumas palavras sobre o evento, mantendo em mente que não tive oportunidade de estar presente no fim de semana online, então todos os meus comentários se vão referir ao fim de semana vivencial.

Em primeiro lugar queria insistir na importância do trabalho que a Alexandra faz para a comunidade astrológica. A escolha cuidada de palestrantes juntou astrólogos portugueses e brasileiros de orientação tanto moderna como tradicional, produzindo uma diversidade de temas muito interessante e enriquecedora. Há poucas conferências de astrologia em Portugal. Além desta, conheço apenas o Congresso Internacional organizado pela ASPAS. Quem acompanha de perto a organização destes eventos sabe que é um trabalho de amor, frequentemente com pouco retorno financeiro. Mas é também o coração pulsante de uma astrologia saudável e em florescimento.

Quando comecei a estudar astrologia há dez anos, o ambiente era muito diferente. Os praticantes dialogavam pouco, a ligação entre Portugal e o Brasil era quase inexistente, e a astrologia portuguesa parecia composta de pequenos feudos que não comunicavam muito entre si. Hoje em dia tudo mudou graças a estas duas conferências. O papel da Alexandra, que atua sem um apoio institucional, não pode ser menosprezado. O espaço de diálogo que ela ajuda a criar é a promessa da astrologia portuguesa para os anos que se avizinham.

Os palestrantes das Jornadas: Cláudia Lisboa, Andrea Honaiser, Simão Cortês, Carlos Hollanda e Isabel Antunes.

O sábado começou com uma palestra da Cláudia Lisboa sobre os pecados e as virtudes e as suas associações planetárias. Foi um prazer conhecer a Cláudia, astróloga estrela do Brasil, mas dotada de uma sabedoria e humildade notáveis para alguém de tanto sucesso. A palestra focou-se num tema que me apaixona, a astrologia remedial. Apesar de a palavra não ter sido explicitamente usada, o estudo profundo da teologia dos pecados e das virtudes associado a uma sensibilidade moderna e profundamente humanista abriu portas interpretativas fundamentais para quem procura entender como melhorar um mapa e não só como interpretá-lo.

A segunda palestra de sábado foi da Andrea Honaiser, querida amiga e participante do Duranki, que nunca tinha tido a oportunidade de conhecer pessoalmente porque temos o Atlântico entre nós. A Andrea tem estudado a fundo tanto astrologia tradicional como os mais profundos entendimentos da psicologia jungiana e do estudo da mitologia. A sua apresentação foi o trabalho destilado de uma simbologista experiente e mostrou um dos aspetos mais importantes da astrologia: é possível encontrar uma relativa coerência na sua linguagem desde o neolítico, o que faz dela um dos produtos culturais mais antigos a que temos a sorte de ter acesso. Isto foi feito com uma linguagem acessível que permitiu tanto astrólogos experientes como iniciantes tirar algo maravilhoso da palestra.

A terceira palestra foi a minha. Não posso comentar se foi eficaz ou não, mas fiquei muito feliz por ver uma audiência tão entusiasmada por Horária e os seus potenciais. Quando me interessei por Horária há quase uma década, sobravam dedos numa mão se contássemos os astrólogos que a praticavam publicamente. Tanto quando sei, entre os astrólogos de renome portugueses apenas o Luís Ribeiro, a Helena Avelar, o João Medeiros e talvez a Isabel Antunes a praticavam. A última década tem sido um terreno fértil para o florescimento da Horária em Portugal, e é um verdadeiro prazer ter contribuído durante estes anos para a sua divulgação. A minha palestra teve um foco grande em horoscopia prática, a minha verdadeira paixão, e tentou juntá-la a ideias que transitam nas margens da tradição medieval e da psicanálise moderna.

Eu com cara de quem acabou de ver os conteúdos do meu inconsciente sem mediação.

No domingo, a primeira palestra foi a do Carlos Hollanda. O Carlos deu a si mesmo a missão de explorar o significado mundano das diversas transições de signo dos planetas transpessoais e de alguns corpos celestes menos conhecidos, como o cometa Sedna. Como astrólogo mundano experiente, o Carlos misturou o passado e o futuro à luz do simbolismo planetário de uma forma poderosa e cativante. É impossível fazer este trabalho sem causar alguma ansiedade, astrólogos exploram o futuro e o futuro não anda com bom ar – mas a sua insistência na ligação dos presságios mais negativos do céu com a tragédia climática que enfrentamos ajuda-nos a lembrar que o astrólogo pode, e deve, ter um papel social. Como bom ariano sem medo, o Carlos fala do mundo mas também fala para o mundo, uma das aspirações mais nobres da astrologia.

Por fim, tivémos a palestra de Isabel Antunes, nome lendário da astrologia tradicional em Portugal. A Isabel faz parte de uma geração de astrólogos que estudou com o Luís Ribeiro e a Helena Avelar no seu processo de transição para a prática tradicional. Ou seja, foi das primeiras pessoas em Portugal que deu a cara pela astrologia tradicional quando todo o terreno era dominado por discursos modernos. Na minha vida tive oportunidade de privar com algumas pessoas assim, tanto em Portugal como em Inglaterra, e estou consciente de que isto foi um passo que implicou grande coragem. A sua palestra baseou-se em ensinar algumas técnicas associadas ao propósito de vida, em particular o cálculo do Almutem de Ben Ezra popularizado por Richard Zoller. Mas aquilo em que a palestra realmente brilhou foi na horoscopia prática, em particular na narrativa cuidadosa que ela construiu em torno do mapa do Hitler, algo que é ao mesmo tempo arriscado mas uma marca de boa horoscopia prática.

Para além das palestras, o fim de semana foi desenhado para o convívio. Foi uma oportunidade de estar cara a cara com vários membros do Duranki e amigos do meu percurso astrológico: A Andrea, o Paulo e a Paula, a Maria João, a Alexandra Vénus em Mim, a Isabel Parreira, o Carlos Hollanda, o Paulo Cardoso, a própria Alexandra Rua e o Luís Gomes e tantos outros. Também foi uma oportunidade de conhecer várias pessoas novas – demasiadas para enumerar. Mas um encontro merece particular menção: a Pola von Grüt. A Paula é uma astróloga e artista astrológica cujo trabalho já conhecia. Na verdade, recebi o seu oráculo das estrelas fixas numa situação sincronística em que ele veio como um bálsamo num momento de dor. A forma como as nossas ideias se ligaram imediatamente numa discussão acesa (e divertida) sobre a natureza da astrologia, o poço infinito de histórias e literatura que ela conhece e a gentileza, humor e diversão com que ela se entrega à astrologia constituíram um encontro no sentido mais profundo do termo. Foi verdadeiramente auspicioso.

Alexandra Costa (Vénus em Mim), eu, Andrea Honaiser e Pola von Grüt.

 

Encontrei-me com o meu pai pouco depois das jornadas enquanto já estava a escrever este texto na minha mente. Nas nossas conversas, ele queixou-se da hipocrisia de alguns meios em que se moveu durante a sua carreira e da tendência que existe nesses meios à bajulação. Este comentário fez-me hesitar com o texto – é um texto em que evidentemente procuro ser elogioso, mas temi que estivesse a cair num processo bajulatório gratuito. Depois de pensar muito acho que não, e devo essa opinião à Paula, que acabei de referir. Numa conversa animada à mesa de jantar a Paula criticou as pessoas que tentam dar à astrologia um estatuto convencional, apontando que o estatuto marginal da astrologia é a sua própria alma. No mesmo jantar, o Carlos Hollanda comentou como nem sempre é fácil conversar de forma aberta em meios astrológicos, que cada dia existe mais um fundamentalismo técnico que leva à fragmentação dos poucos aderentes a esta forma de pensar tão anti-modernidade.

Estes perigos que a Paula e o Carlos apontaram são perigos reais, e são os restos atávicos do astrólogo da realeza. A saudade sombria dos dramas e traições da corte. A procura por ser o braço direito do poder. Mas a astrologia também foi feita por outras pessoas e em outros contextos. Por sábios solitários, por pessoas nas margens da sociedade (o trabalho da Kim Farley é uma referência iluminadora sobre isto), até mesmo por escravos. O líder dos escravos revoltos na segunda guerra servil em roma era astrólogo! O drama da corte é só uma das facetas da história da astrologia, e talvez não seja aquela que queremos arrastar para o futuro.

Esta é a razão porque eu acho que este texto não é bajulatório. Ele nasce do encontro com uma comunidade que escolheu a astrologia, apesar de todas as consequências sociais que isso obviamente traz. Ele nasce de compreender que as pessoas como a equipa do Chá na Lua é que estão certas: que o caminho é ligar, juntar, trabalhar em comunidade, florescer como uma força pensante e independente num mundo que persistentemente nos quer rejeitar. E que estes esforços aparecem apesar de uma larga fatia da nossa comunidade lutar pelo isolamento e pela fragmentação, desdenhar o trabalho conjunto, pensar que a sua escola filosófica e técnica deve ser o árbitro final de uma tradição que pertence ao mundo, como foi dito por alguém no congresso. Parafraseando o Martin Buber, a confiança que sentimos depois de um evento assim não é a confiança do empresário arrogante mas a confiança do lutador nos limites da sua força que sabe que Deus luta do seu lado. É por isto que não há outro caminho justo que não seja o do elogio. Muito obrigado, Chá na Lua.

Eu, Rafaela Salles e Alexandra Rua.

Escrito por Simão Lourenço Ferreira Cortês

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