Quando fundei o projeto Duranki, o meu principal objetivo era partilhar o meu conhecimento astrológico de forma acessível sem comprometer a profundidade do meu trabalho. Comecei por promover uma palestra da Maggie Hyde sobre Jung, um dos nomes mais importantes da astrologia jungiana desta geração de astrólogos. Depois organizei o curso de Magia e Astrologia, o projeto mais ambicioso da área em Portugal, com mais de 50 horas letivas. Segui esse curso com o curso Sonhos, Imaginação e Magia, onde partilhei muito do trabalho que tenho vindo a desenvolver em que se cruzam sonhos e astrologia. Quando estava a preparar este ano letivo, senti que era altura de fazer algo diferente, que fosse além da formação em áreas específicas.
Desde que sou astrólogo que desconfio que há certos desafios da nossa prática que temos alguma dificuldade em discutir. Sempre que tenho oportunidade de privar com astrólogos, experientes ou não, todos parecemos ter certas ansiedades semelhantes: como organizar uma consulta, como desbloquear a interpretação, como integrar a nossa sabedoria na prática concreta e artesanal da astrologia. Foi esta desconfiança que me levou a imaginar o projeto do Grupo Avançado de Astrologia Duranki – um grupo de desenvolvimento profissional feito para astrólogos por astrólogos. A ideia é simples: todos os semestres os membros Duranki votam em vários temas e escolhem áreas da sua prática que gostariam de desenvolver. Num primeiro encontro discutimos e partilhamos quais os principais desafios que enfrentamos nessa área e nas sessões seguintes partilhamos experiências, estratégias e fazemos prática concreta. No final, reunimos quais as revelações mais interessantes e eu escrevo um pequeno artigo que fica disponível para a comunidade em que partilho as nossas descobertas. Este texto é a partilha do primeiro tema deste semestre – Desafios e Prática da Consulta Astrológica.
O que eu vou descrever neste texto é a minha interpretação das imensas partilhas que foram feitas pelo grupo. O grupo tem vários astrólogos, alguns com décadas de experiência, outros nos primeiros passos da sua carreira. Alguns de orientação moderna e outros de orientação tradicionalista. Todos os membros presentes nas discussões contribuíram positivamente e sem eles nada do que está aqui escrito seria possível. As gravações estão disponíveis para membros Duranki e aí podem ser discernidas as contribuições individuais. Aquilo que aqui vou fazer é um resumo, um sumário dos insights que mais me impressionaram e que os vários membros apontaram como relevantes. Qualquer erro ou simplificação só pode ser atribuído a mim.
No começo do processo identificamos algumas áreas críticas:
1- Qual o propósito da consulta astrológica? Em que é que se diferencia de outras profissões de aconselhamento como a psicologia?
2- Como evitar o uso de linguagem técnica na consulta?
3- Como gerir um stellium ou a falta de diversidade simbólica num mapa?
4- Como gerir a atenção em consulta? E como gerir a falta de cooperação dos clientes?
5- Como recarregar baterias?
6- Que informação pedir antes da consulta?
7- Como gerir temas delicados e dolorosos?
Vou abordar cada uma destas questões à vez, na esperança de fazer justiça aos tesouros partilhados pelos vários participantes. Seria impossível fazê-lo num só texto, então vou escrever uma sequência de textos sobre o assunto.
Confesso que a primeira questão foi trazida por mim. A importância dos movimentos de astrologia psicológica mudou o pensamento astrológico para sempre e penso que nem sempre temos a capacidade de demarcar claramente aquilo que é o nosso projeto astrológico. O que é que estamos a fazer com um cliente, além de descrever a sua personalidade? O que é que lhe estamos a dar que ele não tenha já?
A discussão aqui focou-se no poder particular do simbolismo astrológico. Aquilo que a astrologia faz que outras profissões não fazem é tomar a vida do cliente exclusivamente à luz de uma linguagem simbólica com uma gramática de símbolos bem definida. É verdade que a posição da Lua pode descrever a personalidade de um cliente, mas acima de tudo revela ligações secretas entre as várias componentes da vida. Uma Lua em Capricórnio na casa 2 pode mostrar que o cliente passou carências financeiras e afetivas, e que isso se manifesta numa busca desenfreada por sucesso e reconhecimento externo. Mas o que é que podemos dar à cliente além disto? Em parte, podemos dar-lhe imagens. A Lua e o Capricórnio são símbolos ricos que se desdobram em significados potenciais. A carência em questão pode constelar-se num episódio simbólico da vida da cliente – talvez em criança tenha perdido uma boneca numa tarde de inverno em que andava com os pais pela cidade – a boneca perdida na selva de betão e o abandono afetivo da cliente cruzam-se no símbolo astrológico, e o astrólogo tem uma linguagem para expressar isto.
Mas há outras camadas a que a astrologia nos dá acesso. Se Caranguejo estiver na cúspide da 8, podemos ver também que talvez haja uma ligação entre a necessidade de se provar ao mundo e a propensão para atrair parceiros com dificuldades económicas (regente da casa do dinheiro do parceiro em exílio). Se a Lua estiver em quadratura ao Marte (potencial regente da 12), isto pode revelar que subjacente à necessidade de se provar há na verdade uma neurose autodestrutiva (casa 12), uma obsessão espiritual cujo objetivo é causar dor a si mesmo. E por aí adiante. Este jogo entre informação explícita e latente permite ao astrólogo fazer associações entre assinaturas específicas e re-contar a vida da cliente a uma nova luz. Isto conecta-a tanto a uma narrativa cósmica (afinal, falamos de planetas), como constrói laços que não são evidentes entre a vida subjetiva e aquilo que a cliente encontra no mundo. Além disso, permite a orientação para a realização de um símbolo – ou seja, fala não só do que é mas do que poderia ser. Em que medida é que a Lua em Capricórnio pode ressignificar as lutas do cliente com o que é seu? Até que ponto é que esta grande deusa pode produzir uma transformação interna?
Este ponto leva-nos ao segundo desafio que muitos de nós sentimos: evitar linguagem técnica. Enquanto que quase toda a gente presente concordou que uma certa dose de linguagem técnica ajuda a “colorir” a consulta de forma a torná-la mais atraente e a divulgar a astrologia como área de saber, também concordamos que existe uma tendência para o uso excessivo de linguagem técnica. Partilho agora alguns dos conselhos destilados desta discussão:
1- Simplificar a técnica: A cliente não tem necessidade de saber as complexidades interpretativas que nos levaram a determinada conclusão. Mas isso não implica que não ilustremos essa conclusão com linguagem astrológica que alicie a cliente ao interesse pela área e pela sua poesia inerente. Por exemplo, a nossa interpretação pode depender de aspetos entre regentes de casas, ou lotes ou uma outra técnica avançada. Mas podemos, ao invés de a descrever, usar simplesmente um planeta como ilustrativo. A minha interpretação pode depender de um trígono exato entre Mercúrio e o regente do ascendente com uma bonita receção mútua, mas eu posso simplesmente falar em Mercúrio. Ao mencionar Mercúrio, abro imediatamente espaço a uma teia de significados mitológicos que estão no coração da astrologia e do seu desenvolvimento histórico, e ofereço à pessoa uma relação direta com um deus sideral. A linguagem utilizada pode ser uma sobre-simplificação grosseira do método interpretativo, mas é eficaz no contexto do atendimento. Não nos devemos parar com medo de representar mal a astrologia – o nosso trabalho é a aplicação do cânone astrológico, mas também é o despertar da chama da imaginação no cliente.
2- Construir um repertório de histórias quotidianas: A espontaneidade é um ponto importante da consulta astrológica, mas isso não nos deve impedir de construir um repertório de histórias a que podemos fazer referência recorrentemente para clarificar o significado de uma configuração astrológica. Por exemplo, eu tenho o Mercúrio na casa 12 dos inimigos secretos e das traições. Há uns anos fiz um talismã de Mercúrio que teve efeitos maravilhosos – poucos dias depois de o fazer, fui aceite para falar na conferência da Astrological Association e tive um artigo meu republicado pelo astro.com, o mais prestigiado site de astrologia do mundo. Mas ao mesmo tempo, um amigo que considerava muito próximo começou a demonstrar atitudes bizarras comigo, a criticar-me publicamente e a propiciar uma quebra entre nós. Esta história ilustra bem um tema de casa 12, porque revela que mesmo em momentos de triunfo pessoal nos podemos encontrar com processos dolorosos que nos são completamente invisíveis. Uma história assim clarifica o potencial da 12 muito mais eficazmente do que uma lista de associações, e imediatamente cultiva o rapport entre o cliente, o astrólogo e a configuração.
3- Linguagem concreta em termos de obstáculos e oportunidades: A questão central aqui é garantir que a consulente consegue conceptualizar a informação de uma forma que a estimule à ação. Uma linguagem que pense o símbolo astrológico em termos de desafios e oportunidades é facilmente acessível, e remete-nos para o potencial remedial da astrologia, uma das suas aspirações mais humanistas e mais altas. Todo o símbolo astrológico, mesmo quando entendido à luz dos aforismos mais conservadores, tem potenciais benéficos e maléficos. Mesmo Saturno, pai do medo e da privação na astrologia, é frequentemente representado em manuscritos árabes como um sábio asceta. Esta capacidade imaginativa e prática de traduzir os dilemas em termos de obstáculos e oportunidades permite que a consulente saia com muito mais conteúdo da consulta e que não se perca em detalhes técnicos.
4- Utilizar símbolos e imagens que se conectem com a vida da pessoa: No ponto oposto da linguagem prática de desafios e oportunidades temos o potencial mitologizador da astrologia. Aqui fazemos uso de imagens poéticas e simbólicas que associamos a cada configuração astrológica de modo a ligar a pessoa com temas da sua vida a um nível imaginal e emocional. Podemos escolher metáforas elementais: Talvez uma pessoa de Ascendente em Peixes navegue os seus problemas enquanto que uma pessoa de Ascendente em Carneiro os combate. O mito de Hades e Perséfone é uma imagem mais eficaz do que a abstração da “Lua oposta a Plutão”. Uma simples imagem de um sonho ou de um poema pode clarificar uma dinâmica até aí sentida como fatídica. Esta é, talvez, a dimensão mais complexa do diálogo astrológico porque implica tanto uma sensibilidade poética como a capacidade criativa de a expressar da forma certa no momento certo. Uma ideia sugerida no grupo foi que os astrólogos têm a possibilidade de gerar uma circularidade útil no seu trabalho, em especial aqueles que criam conteúdo do tipo “céu do dia” ou “céu da semana”. As metáforas utilizadas nesse tipo de conteúdo podem e devem ser usadas para criar um repertório de imagética útil para ser usada em consulta.
5- A utilização de guiões e repertórios linguísticos: Dentro do mesmo tema, um trabalho por vezes menosprezado por pessoas que atendem é a criação de listas de vocabulário útil para a expressão astrológica. Há uma riqueza semântica enorme nos conceitos astrológicos que pode ser usada para criar listas de vocabulário útil. Como expressar Saturno além do medo e do bloqueio? Que verbos temos? Podemos falar em arrefecer ou paralizar, em aterrar ou aprisionar, em amarrar ou discernir. Podemos descrevê-lo sensorialmente como frio, seco, áspero, rígido ou psicologicamente como castrador, desconfiado e cauteloso. Podemos personificá-lo como severo e ávaro ou pensá-lo abstratamente como monástico, fatídico ou asceta. Um vocabulário variado e rico ajuda a ilustrar ideias, imagens e conceitos de uma forma que torna a descrição técnica obsoleta.
6- Dimensão pedagógica: Uma última opção é a de utilizar a consulta astrológica como um momento pedagógico para quem já sabe alguma coisa de astrologia. Em última análise isto depende do cliente e das suas necessidades mas pode ser muito revelador. Eu mesmo, quando comecei a dar consultas, fui a vários astrólogos para entender melhor o que eles faziam na prática, e isto foi das coisas que mais me ajudou a desenvolver uma prática madura e sensata. É preciso ter cuidado para fazer uma distinção clara entre uma consulta e uma aula: as pessoas que procuram um astrólogo estão preocupadas com a sua vida, e normalmente precisam de orientação. A utilização de linguagem pedagógica só faz sentido se ela ajudar o astrólogo a fazer as jogadas necessárias para desbloquear a interpretação e ajudar o cliente, mas isto é frequentemente o caso. Para alguém que sabe de astrologia, olhar uma configuração a uma nova luz pode ser um desbloqueador potente – mesmo se a linguagem for astrológica. Tive há pouco tempo uma revelação assim, pela boca da astróloga Thamires Sarti. Estava indeciso sobre escrever um texto a clarificar uma descrição errada das ideias do meu mentor Geoffrey Cornelius no AA Journal. Não sabia se o deveria fazer ou não porque não estava certo de que alimentar uma certa discussão fosse o caminho adequado. Em conversa, a Thamires disse “Uma das empreitadas mais importantes do Caranguejo. Lutar pela memória fidedigna é tão difícil que parece justificar a queda de Marte”. Esta afirmação está completamente enraizada na linguagem técnica e artesanal da astrologia, e só pode funcionar porque é dirigida a outro astrólogo, mas re-significa o problema à luz do meu Ascendente de uma forma que permite ver a única resposta possível ao dilema.
Espero que estes comentários sejam úteis à comunidade astrológica, e continuarei em breve a descrever as várias conclusões a que chegámos ao longo da nossa discussão.
Uma última nota sobre a autoria do texto: Enquanto que fui eu que escrevi o texto e tenho responsabilidade por qualquer má representação das ideias aqui expressas, o trabalho de fundo foi coletivo e colaborativo dos membros Duranki. Seria impossível caçar cada referência específica e citá-la, mas pedi aos membros que lessem o texto e vou atualizá-lo se algum membro expressar o desejo de ter o seu nome explicitamente associado a uma das ideias.




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