Há um efeito misterioso quando começamos a estudar horária. Muitos dos mapas que levantamos aparecem-nos com uma clareza invulgar, e as resoluções fluem naturalmente. Isto é uma experiência reportada por todos os horaristas que eu conheço e há referências sugestivas a isto na tradição. Em particular, Ficino afirma que frequentemente os principiantes dão julgamento astrológico com mais facilidade do que os praticantes experientes. É como se começássemos a busca mergulhados num estado de graça que gradualmente se dissolve. Primeiro estabelece-se a fé no método, e depois é preciso reconquistá-lo através do discernimento e do esforço artesanal.
No começo da minha prática analisei dois mapas muito interessantes, ambos sobre gravidez e ambos extremamente importantes. Um deles foi o caso de uma amiga que engravidou de forma inesperada de uma relação que estava a começar na altura. Ela estava a meio do mestrado e percebeu rapidamente que teria de escolher entre ter a filha ou terminar o curso. Ela é espírita e vem de uma família com inclinações espirituais que tornavam a ideia da interrupção da gravidez um pouco violenta, apesar de em termos políticos não se opôr à IVG. Quando ela me abordou para eu fazer uma pergunta horária, eu hesitei e francamente penso que não teria aceitado a pergunta se viesse de uma cliente normal. Conheço várias mulheres que optaram pela interrupção voluntária da gravidez e frequentemente não é um processo fácil mesmo quando não há a pressão de uma crença religiosa. Então, quando aceitei abrir o mapa, estava particularmente ansioso com o que pudesse ser mostrado. A pergunta foi simplesmente “qual é a decisão certa?”.
“Qual a decisão certa?” – 20/04/2016, 15:28, Lisboa
O mapa é bonito na sua simplicidade. Na altura, e com a pressão da importância do caso, não quis mergulhar excessivamente na análise. Havia um testemunho simples, eficaz e maravilhoso. A Lua separa-se do sextil de Marte (regente da 9) e aplica-se ao sextil de Saturno (regente da 5) – a decisão certa é deixar o mestrado e ter a filha. Isto é intensificado pela presença da Lua em Balança, a exaltar o regente da 5.
Ao olhar para este mapa 8 anos depois, há muitas coisas que me chamam à atenção que não me lembro se reparei na altura. Por exemplo, o mapa tem duas quase restrições ao julgamento. O Ascendente está a 3º graus de Virgem e a Lua está prestes a entrar na Via Combusta. Enquanto que em ambos os casos a simbologia não constitui uma restrição, é por pouco. Eu costumo descartar mapas até ao grau 2º do signo, e a Lua estaria na Via Combusta se estivesse apenas 1º40’ mais à frente. O mapa confirma que a minha cautela era adequada, mas, tal como eu, abre uma exceção. O regente da 1 está na 9, o que mostra que a questão central aqui é de natureza religiosa para a querente. Os regentes relevantes, Marte e Saturno, são maléficos retrógrados e a Lua está tecnicamente sitiada entre eles (em conversa com a Júlia Garcia Oliveira, ela mencionou como isso mostra bem o sofrimento emocional da querente). Todas estas informações têm a sua verdade. Algumas introduzem marcas de radicalidade, outras introduzem confusão, mas nenhuma altera a simplicidade do julgamento. Até hoje, a querente insiste que ter a filha foi uma das melhores decisões da vida dela – acabou por se casar com o pai e entretanto já tiveram uma outra filha. Deixar o Mestrado permitiu-lhe encontrar a sua verdadeira vocação e afastar-se da neurose académica.
Mas há mistérios maiores no coração da horária que vêm à luz com este mapa. É frequente ouvir-se que a horária é uma técnica objetiva, mas isto é um caso que demonstra bem como essa ideia é turva. A horária é uma técnica precisa e com uma extraordinária clareza imagética nos seus melhores momentos, mas qual é a objetividade nesta pergunta? Quando se pergunta “qual a decisão certa”, queremos dizer “certa” para quem? Segundo quais critérios? E ainda assim, a horária mostra-se capaz de responder, e a experiência da querente confirma que o caminho mostrado foi o “certo”. A decisão é completamente radicada nas subjetividades da querente e do astrólogo, na negociação dos seus destinos individuais e no clarear da dúvida paralisante.
Isto, mais uma vez, é um tema presente na tradição. Lilly modaliza sempre o formato das suas perguntas. Vejamos um exemplo: No Capítulo XXVII do segundo volume da Astrologia Cristã o Lilly começa com uma secção intitulada “If the Querent shall be Rich, or have a competent Fortune?….” – o título continua mas esta é a parte relevante. Traduzido para português, isto seria “Se o querente será rico, ou terá uma Fortuna considerável?”. Até aqui, não há surpresas. Mas algo muda drasticamente no primeiro estudo de caso que ele apresenta neste capítulo. Um homem de negócios coloca-lhe quatro perguntas, sendo a primeira descrita como “If he should be rich, or subsist of himself without marriage?”. O verbo “shall” do título aparece aqui como “should” uma forma modalizada com tons condicionais e conjuntivos. Algo que em português ficaria como “Se ele ficaria rico, ou subsistiria por conta própria sem casamento?”. O Lilly faz uso deste tipo de estrutura consistentemente. Seria possível uma leitura reducionista, em que “should” funciona apenas como uma forma de futuro perfeito “ele perguntou-me se ficaria rico…”, mas nós temos evidências bastante claras de que modos conjuntivos e condicionais são usados em perguntas oraculares desde o oráculo de Delfos. O Plutarco discute esse assunto no Sobre o E de Delfos. Mas se isto não for suficiente, basta apontar que na sua previsão sobre o destino do Presbitério, a mais arriscada previsão do Astrologia Cristã, que indica com relativa precisão temporal o momento do regicídio do rei Carlos I durante a guerra civil inglesa bem como o retorno de Cromwell enquanto general do exército parlamentarista, Lilly afirma que está a fazer uma previsão num modo conjetural.
Seria uma pobre defesa da sua arte se a utilização da palavra conjetural fosse apenas uma válvula de segurança contra o erro preditivo. Se Lilly tivesse medo do erro preditivo, ele poderia simplesmente não apresentar uma previsão pública desta magnitude. A utilização da estrutura condicional na descrição das perguntas dos querentes é uma escolha que se alinha com esta dimensão conjetural – exatamente o oposto de uma previsão que se foca meramente em factos objetivos.
Mas então o que é previsto pela precisão horária? Geoffrey Cornelius e Maggie Hyde afirmam que é uma hermenêutica do desejo – o que o mapa mostra é o movimento da alma na direção do seu desejo, e a possibilidade ou não desse encontro. Isto está codificado na nossa língua, na origem etimológica de desejo: “de-sidere”, a partir das estrelas. Este processo vai frequentemente resultar em previsões que têm dimensões objetivas, mas a objetividade não é central nem produz o resultado mais importante. No caso discutido, uma pergunta tão subjetiva como “qual o caminho certo?” resulta no nascimento de uma criança e na mudança eterna do destino da querente.
Em nada se vê isto com mais clareza do que na implicação do próprio astrólogo na Horária, representada na tradição pela cautela interpretativa adotada quando há aflições à casa 7, representante do astrólogo. A Júlia Garcia Oliveira fez um comentário iluminador sobre esta história quando a discuti com ela: A minha própria dimensão Jupiteriana, muito clara na minha natividade, representa o movimento através do qual eu recebo duas horárias que resultam em nascimentos. A tomada interpretativa é confirmada pela abertura da casa 7 em Peixes e a presença de Júpiter na 1. Este Júpiter joga simbolicamente com o meu desejo ansioso de ajudar (ele está, afinal, exilado em Virgem) mas também com a própria imagem da gravidez (algo que cresce dentro da querente). A precisão simbólica é avassaladora, mas qual é o espaço para o desencanto dos factos objetivos quando astrólogo e feto aparecem reunidos numa só imagem no contexto de um mapa que representa o ato de tomar posse do próprio destino?





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