O Endemoniado de Cardano

por | jan 3, 2025 | Análise de Mapas, Astrologia Natal, Traduções | 0 Comentários

Giralomo Cardano foi um astrólogo italiano do século XVI. Os seus aforismos foram muito importantes na tradição astrológica do renascimento tardio, e perduraram especialmente porque William Lilly traduziu uma compilação deles para o inglês que ainda hoje circula bastante entre estudantes de astrologia tradicional. No entanto, um dos grandes tesouros que Cardano nos deixou foi o seu livro Cem Genituras, hoje parte do Libelii Quinque. Tanto quanto sei este livro não está traduzido para nenhuma língua moderna, algo que dificulta o acesso do astrólogo contemporâneo à horoscopia prática do Renascimento. O livro contém uma mistura de mapas de famosos, como o Martinho Lutero, o Erasmo de Roterdão ou o Francisco Petrarca, mas também contém vários casos privados. É nestes casos privados que temos uma janela interessante para a bizarria cultural renascentista: infidelidade, partos monstruosos, nativos endemoniados, efeminados, loucos. Cada natividade é acompanhada de uma pequena resenha onde Cardano tenta encontrar assinaturas relevantes para a vida do nativo.

Neste texto vou partilhar uma tradução da resenha sobre um homem que Cardano afirmava estar possuído por “um demónio furioso”. O texto é curto mas rico em simbologia astrológica. O mesmo texto ocorre no Libelli Duo, com um parágrafo extra sobre Fridária que tem pouca relevância para o caso prático, razão pela qual ele deve ter decidido omiti-lo nesta edição posterior. Segue o texto integral da genitura 36, entitulada “Daemoniaci” no índice e “Baptistae Bergomensis” na secção do texto. O mapa pode ser levantado num software moderno com os dados 13/09/1513, 6:48 (LMT -0:36:30), Pavia. O sistema de casas usado por Cardano é o de casas iguais.

“Reparem que as genituras em que ainda não me tinha certificado do erro da posição de Marte e Saturno, porque as tinha tomado como corretas anteriormente, não se encontram corrigidas. Isso foi principalmente devido à pressa e porque o assunto não é de grande importância, desde que o planeta não interfira. Ele [o nativo] era, portanto, endemoniado, pois antes dele os pais sofriam da sua loucura, e Júpiter estava quase exatamente no grau oposto a Saturno, e ambos os luminares estavam cadentes de um ângulo, e a Lua cheia de luz oposta a Marte e debaixo da terra. Concordamos, portanto, que ele possuía um demónio furioso e porque Mercúrio estava no Ascendente em sextil com Vênus, e junto da Spica da Virgem,ele  predizia o futuro e revelava coisas ocultas, e nesse tipo de atividade era apreciado pelas pessoas. Quando, porém, chegou ao décimo quarto ano, morreu em consequência da revolução e das direções, pois não havia para ele um regente da vida exceto Mercúrio. A causa de sua morte é-me desconhecida, seja porque é necessário considerar isso com mais atenção, seja porque o ponto de partida já é oculto para mim, seja porque a hora do Ascendente tem uma ligeira variação.”

Como na maioria da astrologia antiga, Cardano não está interessado em fazer uma análise exaustiva de todas as possíveis significações do mapa, mas sim em encontrar as assinaturas principais para aquilo que dá interesse e relevância a este caso. Ele escolheu o mapa deste jovem por acreditar que ele estava possuído por um demónio e o seu esforço interpretativo é dirigido para demonstrar em que termos é que o mapa sustenta esta ideia. Este tipo de abordagem foi descrito como a “localização de significado” pela Companhia dos Astrólogos no processo de recuperação e estudo de autores da era de ouro da astrologia inglesa, como o Lilly e o Gadbury.

Cardano estabelece três bases simbólicas para o julgamento da possessão demoníaca: a oposição Júpiter-Saturno, a cadência dos luminares e a oposição da Lua quase cheia com Marte. A enumeração destes elementos é lacónica, e é impossível saber tudo aquilo em que ele pensou na altura, mas há realmente bases simbólicas poderosas nestas escolhas. Júpiter e Saturno são uma jogada interpretativa poderosa porque claramente se relacionam com a loucura hereditária dos pais – Saturno rege a casa 4 da família e do pai e Júpiter é regente por exaltação do MC da mãe. A escolha de regentes por exaltação é rara hoje em dia, mas um passo interpretativo muito comum para Cardano. A ligação hereditária é ainda mais confirmada uma vez que Saturno rege tanto a 4 da família como o Ascendente por exaltação. Ou seja, a condição da família e do nativo são parecidas. Esta aflição toca no tema da saúde porque Júpiter rege a 6.

A segunda linha, menos convincente por si só, fala da cadência dos luminares. Isto é claramente uma referência à fraqueza de dois pontos hiléguicos como testemunho de uma saúde fragilizada. É interessante também a possível insinuação de uma personalidade mais fraca, propensa a ser dominada pelo demónio. As casas envolvidas são a 12 e a 6, casas que trazem consigo temáticas de saúde física e mental, e também temáticas demoníacas – o mau daimon pertence à 12 desde a Grécia antiga.

A terceira linha, e a mais convincente, é a oposição da Lua quase cheia a Marte, de novo no eixo 6-12. Cardano fala de um “demónio furioso”, claramente referenciando Marte na casa do mau daimon a atuar sobre a Lua, senhora dos humores humanos. A aflição generalizada da Lua por um maléfico vindo da 12 é o verdadeiro argumento para a possessão demoníaca, os restantes servem para acrescentar peso ao julgamento.

Mas os comentários seguintes acrescentam ao mistério: este jovem possuído era amado pelas pessoas. A assinatura é óbvia: Mercúrio na 1 conjunto a Spica está em sextil a Vénus – o nativo seduz pelo dom da palavra e da profecia. Esta visão é fortalecida pelas regências acidentais de Mercúrio – senhor da 9 e da 12 – ou seja, senhor de todos os temas espirituais, religiosos, proféticos, ocultos e heréticos. Vénus não é só um acrescento melífluo aos talentos proféticos do nativo – ela é a própria regente do ascendente a beneficiar do Mercúrio disposto por si, posicionada em Leão na 11. Aqui vemos que o nativo é realmente amado pela comunidade.

Cardano dedica pouco tempo a discutir o retorno do ano da morte do nativo, algo invulgar na sua coleção de mapas. Na verdade, porque o mapa tem inevitavelmente erros de computação, é-nos impossível reconstruir o mapa do retorno que ele usou quando ele providencia tão poucas informações. Mas sabemos que ele morreu cedo, com apenas 14 anos, de uma causa misteriosa.

O que mais me fascina neste mapa é a segurança com que Cardano afirma a possessão do jovem, e a relação evidente para ele entre a possessão e a loucura hereditária. O mapa é claro na sua temática de sofrimentos de saúde mental, e realmente Marte é sugestivo de um temperamento bastante explosivo, mas quais são os argumentos reais que Cardano aponta para o nativo estar possesso? De certa forma, parece-me ficar fortemente sugerido que são os poderes proféticos e ocultos do rapaz que levam à certeza da sua possessão. Cardano era um católico fervoroso, e estava a escrever no auge da contra-reforma. Aliás, a sua coletânea conta com críticas ferozes aos mapas de Lutero, Henrique VIII e outros famosos protestantes. Então quem nos vai dizer se este rapaz estava possuído ou era, essencialmente, um bruxo numa batalha feroz com a sua saúde mental? Talvez o mapa.

Para pensarmos adequadamente a simbologia demoníaca vale a pena começar pela casa 12, a peça central deste drama. É verdade que Marte faz uma oposição terrível à Lua a partir da 12, e havemos de voltar a isto, mas que outros testemunhos é que temos? Temos lá o Nodo Norte, que é sugestivo de uma relação positiva, mas é verdade que por vezes tem o efeito de aumentar um mau testemunho. Mas aquilo que realmente tira a teima é o regente da casa, Mercúrio, conjunto a Spica na 1 numa relação harmoniosa com o Regente do Ascendente, seu dispositor. Seja o que for que a casa 12 representa, ela beneficia o nativo e fá-lo de uma forma auspiciosa. Além disso, Mercúrio está ao serviço de Vénus, mostrando que o nativo tem poder sobre os temas da 12. Caso realmente houvesse espíritos imundos ou heréticos em jogo neste caso, o mapa parece sugerir fortemente que o nativo tinha poder sobre eles e não o contrário.

Há um testemunho moderno que intensifica esta interpretação: a oposição de Urano a Mercúrio, senhor da 12 e da 9, sugere uma certa vocação da heresia. O rapaz não está endemoniado, ele é um adolescente herético com poderes proféticos – isto é suficiente para o categorizar como possesso. Mas reparem que mesmo aqui a astrologia nos sustenta: o regente do ascendente está na casa 11, na casa do bom daimon. Quaisquer que sejam as suas práticas, ele está realmente ao serviço de um bom poder metafísico. A cadeia de disposição entre Mercúrio, Vénus e Sol mostra isto muito bem – a heresia ao serviço do nativo, o nativo ao serviço do bom daimon, o bom daimon ao serviço da heresia. 

A oposição da Lua a Marte aparece agora sob uma luz completamente nova. Marte é senhor da 7, do outro, do inimigo e do astrólogo. Ou seja, no mapa deste nativo, Marte é o próprio Cardano. Cardano aparece na 12, a fazer uma acusação de possessão contra a Lua. A Lua está na casa 6, doente mas não possuída. Aqui vemos um outro comentário amargurado do próprio mapa: é que a Lua, além da regente essencial dos humores do nativo, é regente da casa 10. A acusação que Cardano faz a este jovem de estar possuído é a própria razão da sua fama imortal. Mas é difícil acreditar que ele fosse endomoniado, quando no âmbito geral das oposições violentas do mapa aquilo que realmente brilha é a harmonia entre a Senhora do Ascendente e o Senhor da 9/12. O que o céu nos deixa é o testemunho maravilhoso de um menino-profeta da Itália renascentista difamado pelos excessos da contra-reforma.

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Escrito por Simão Lourenço Ferreira Cortês

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