A razão porque decidi mudar a minha forma de olhar para as receções na astrologia

por | mar 5, 2025 | Astrologia Horária, Astrologia Natal | 0 Comentários

As receções são uma das dinâmicas interpretativas mais importantes da astrologia, em particular da astrologia horária. Isto é evidente em toda a tradição medieval e renascentista, de tal modo que o livro do Masha’allah sobre horária se chama Sobre a Receção. As receções são um elemento central da perfeição horária porque expandem e clarificam o significado dos aspetos. Aquilo que é unânime na tradição é que uma receção fortalece um bom aspeto e mitiga um mau aspeto. De certa forma, a receção é um catalizador da dinâmica aspetual do mapa que garante a possibilidade de perfeição de um aspeto em particular e, consequentemente, do evento que ele representa.

Em termos técnicos, a receção ocorre quando um planeta está nas dignidades de outro. Por exemplo, Marte em Leão é recebido pelo Sol. Esta receção torna-se particularmente relevante quando o primeiro planeta aspeta o planeta que tem dignidades no signo em que está. Se o Marte em Leão aspetar o Sol, então temos um aspeto com receção. Mais importante ainda do que um aspeto com receção, é um aspeto com receção mútua: ou seja, quando ambos os planetas estão em dignidades um do outro – por exemplo, quando o Marte em Leão faz uma quadratura ao Sol em Escorpião. Apesar de se tratar de uma quadratura, vamos considerar esta quadratura como um aspeto bastante benéfico porque Marte está no domicílio do Sol e o Sol está no domicílio de Marte.

A primeira vez que eu vi uma discussão aprofundada sobre receção num texto astrológico foi no The Horary Textbook do John Frawley. Frawley explica a ideia de receção através de uma metáfora de motivo psicológico. Ele dá o seguinte exemplo, imaginando que a Lua está no grau 3º de Carneiro:

 

“O que é que isto nos diz?” Na maioria dos contextos, a receção pode ser vista como gostar ou amar. O significador – neste exemplo, a Lua – gosta ou ama de várias maneiras os planetas em cujas dignidades está posicionada. Da forma mais simples possível, vemos neste exemplo que a Lua ama Marte e o Sol. Tem um gosto moderado pelo Sol porque está na triplicidade do Sol. Tem um pequeno gosto por Júpiter e um gosto ainda menor por Marte. Não aguenta Vénus e Saturno” (John Frawley, 2005 , The Horary Textbook, p.71 – minha tradução do inglês).

 

Esta foi a versão do conceito de receção que eu usei durante quase uma década, mas estou agora convencido de que ele se baseia numa má leitura daquilo que as fontes tradicionais indicam. A lógica interna da receção neste caso funciona de forma mais ou menos clara: As várias dignidades e debilidades representam impulsos psicológicos do planeta que se posiciona nelas. Se o planeta está em Carneiro, isto implica amor por Marte, regente de Carneiro. Mas implica também ódio por Vénus, o planeta que tem o seu exílio em Carneiro. O mapa torna-se então um potencial campo de motivações psicológicas que vão colorir os aspetos. Por exemplo, um trígono entre Júpiter em Balança e o Sol em Gémeos é, na verdade, muito menos auspicioso do que parece à primeira vista porque o Sol está no exílio de Júpiter e Júpiter está na queda do Sol. Terminamos assim com uma espécie de receção mútua invertida, ou “rejeição mútua”, que dificulta um trígono do mesmo modo que uma receção mútua mitiga uma quadratura.

Foram dois exemplos da tradição, quando estudados a fundo, que me geraram uma desconfiança quanto a esta leitura. O primeiro exemplo vem de Masha’allah, do seu livro Sobre a Receção. É bem sabido que uma receção mitiga o efeito de um testemunho de morte. Frawley descreve a receção entre senhor da 1 e senhor da 8, mesmo quando há aspeto, da seguinte maneira:

 

“‘Certamente se a Morte e a pessoa se amam (receção mútua) vão querer estar juntas, então a pessoa vai morrer?’ A ideia aqui é que a Morte e a pessoa são amigas, então a Morte deixa as chaves na mesa e vira as costas, deixando a pessoa escapar das suas garras” (John Frawley, 2005 , The Horary Textbook, p.185, minha tradução do inglês).

 

O que me surpreendeu foi reparar que a dinâmica de receção em perguntas que envolvem morte é completamente diferente em Masha’allah. Ele diz-nos: 


“Nomeadamente, quando o Senhor da casa da morte recebe o Senhor da casa da vida, ou recebe o anunciador da sua disposição vindo da casa da vida [translação de luz]: porque aí será uma receção forte. E se o senhor da casa da vida recebesse o senhor da casa da morte, isto é uma receção fraca; no entanto, o senhor do domicílio da morte não o destruirá totalmente, pelo comando de Deus”, (Benjamin Dykes, 2008, The Works of Sahl and Masha’allah, p.457).

 

Algo de estranho está a acontecer aqui porque a lógica subjacente a esta dinâmica de receções parece completamente diferente da lógica da dinâmica de receções em Frawley. Aquilo que Masha’allah diz é que quando o regente da 1 está no signo do regente da 8 isto é auspicioso. Quando o regente da 8 está no signo do regente da 1 isto é muito menos auspicioso. Mas de acordo com a lógica que vimos em Frawley, o regente do signo da 8 no signo do regente da 1 seria a melhor das hipóteses porque mostraria a morte como amiga do querente. Isto é uma evidência muito forte de que há uma diferença fundamental no entendimento de Frawley e de Masha’allah. Olhando a nota de tradutor que Benjamin Dykes faz para esta passagem temos uma primeira pista de onde jaz essa diferença:

 

“…neste caso, a receção é fraca porque receber o Senhor da morte na tua casa vai convidar a morte. Ele não está a tecer um argumento particular sobre dignidades aqui” (Benjamin Dykes, 2008, The Works of Sahl and Masha’allah, p.457).

 

Esta passagem e nota levaram-me pela primeira vez a um pensamento incómodo de que o entendimento generalizado das receções, frequentemente repetido mesmo em várias escolas tradicionais, pudesse ser baseado numa má metáfora – a do amor. É verdade que receções mútuas são testemunhos poderosos de amor – mas em perguntas de amor. Ou seja, é o contexto que define que a receção é sobre amor. Mas nesta passagem, Masha’allah está claramente a pensar a receção como um recebimento no sentido de hospitalidade. Nesse caso, se o regente da 8 estiver no signo do regente da 1, isso é um auspício tenebroso porque representa o recebimento da morte na casa do querente. Mas se o regente da 1 estiver no signo do regente da 8, a morte recebe o querente e mostra-lhe hospitalidade, deixando-o fugir.

O segundo exemplo tradicional perturbador que encontrei foi a análise de uma horária que Lilly publica no seu panfleto England’s Propheticall Merline de 1644, que pode ser consultado neste link: https://iiif.wellcomecollection.org/pdf/b2016502x . A horária está na página 133 do manuscrito (158 do pdf) e tem o título “Uma Senhora desejava saber se casaria com um homem idoso, sim ou não”. Não pretendo fazer uma leitura exaustiva da análise, apenas das linhas de abertura:

 

“A querente tem apenas Mercúrio como significador. Júpiter é para o homem idoso e a pessoa sobre a qual se pergunta. Considerando que Mercúrio se tinha separado recentemente de um Sextil de Júpiter, e a Lua de uma Quadratura, julguei que tinha havido recentemente algum acordo sobre isso, (o que foi confessado:) e que o homem idoso insistiu muito nisso, porque Júpiter recebe Mercúrio na sua exaltação, e lança um Trígono amigável para o grau Ascendente…” (William Lilly, 1644, England’s Propheticall Merline, p.133 – minha tradução do inglês)

Vamos olhar para a interpretação passo a passo. O Ascendente abre em Virgem, o que dá Mercúrio para a senhora que pergunta. O descendente em Peixes, o que dá Júpiter para o homem idoso. Lilly observa um sextil separativo entre Mercúrio e Júpiter que o leva a afirmar que alguma coisa já havia sido acordada quanto a um possível casamento: A interpretação é simples, o sextil já aconteceu, e o evento também. Mas vejamos cuidadosamente a posição de Mercúrio e Júpiter. Mercúrio está a 28º de Caranguejo, Júpiter a 21º de Touro. Lilly julga, a partir disso, que o homem idoso insistiu muito porque Júpiter recebe Mercúrio na sua exaltação. Ou seja, a lógica é diametralmente oposta àquela dada por Frawley. Se seguissemos a lógica que vimos originalmente, quem deveria estar mais interessada era a querente, porque Mercúrio está na exaltação de Júpiter. Mas na verdade, Lilly julga que é Júpiter que tem mais interesse em Mercúrio porque o recebe na sua exaltação.

 

Depois de me encontrar com estes dois exemplos comecei a desconfiar profundamente da aplicação que fazia da receção há quase uma década e comecei a reparar noutros detalhes: por exemplo, nunca encontrei num texto tradicional um exemplo de algum astrólogo julgar que um planeta colocado numa debilidade de outro prejudica um aspeto. Ou seja, não me conseguia lembrar de nenhum exemplo claro de “rejeição mútua” – algo extremamente bizarro considerando a importância que os antigos dão à receção e o quão comum a utilização de “rejeição mútua” é entre tradicionalistas contemporâneos. Comecei a fazer perguntas a várias pessoas sobre isto, em busca de exemplos de rejeição mútua na tradição. O texto que me devolveram algumas vezes foi do Sobre a Receção de Masha’allah. É um excerto disponível gratuitamente no Skyscript: https://www.skyscript.co.uk/masha_allah_receptions.html. É um excerto no qual Masha’allah discute a possibilidade de perfeição por oposição quando existe uma receção mútua. Vale a pena citar por partes:

 

E se o Sol estiver em Balança no primeiro grau, e Saturno em Carneiro no décimo terceiro grau, e nenhum planeta estiver em Carneiro, nem nenhum em aspeto mais próximo do Sol do que o aspeto a Saturno, nem Saturno sair de Carneiro até o Sol se juntar a ele grau por grau, então o Sol recebe Saturno, e Saturno o Sol: cada um recebe o seu associado neste lugar por exaltação. E se for por quadratura ou oposição significa trabalho e erros, e ansiedade e contrariedade; e em trígono ou sextil ou conjunção significa suavidade, piedade e elevação. E se o Sol se juntar a Saturno, e Saturno receber o Sol, com Saturno ainda sendo, por sua vez, recebido pelo Sol, a partir dos seus domicílios ou exaltações, eles ficarão em paz e aperfeiçoaram o assunto, pelo comando de Deus”.

 

O que Masha’allah nos diz é que mesmo considerando as complicações típicas de uma perfeição por quadratura ou oposição, a receção mútua permite um fim auspicioso para a questão. Mas para garantir que a lógica foi entendida, Masha’allah dá um exemplo contrário logo em seguida: 

 

“Mas se o Sol estiver em Carneiro, e Saturno em Balança (tal como vos disse sobre a oposição), haverá inimizades e contrariedades, ignorâncias e recusas, porque nenhum deles recebe o seu associado. E o mesmo para todos os outros planetas.”

 

É verdade que pode haver uma ligeira sugestão da ideia de rejeição mútua neste excerto, mas tanto o contexto como as próprias palavras do autor eliminam qualquer dúvida. Aquilo que Masha’allah está a fazer é a dar o exemplo oposto daquele que deu anteriormente. Ou seja, ele escolheu uma oposição, o pior dos aspetos, para ilustrar que a perfeição é possível quando existe uma receção mútua (no caso, por exaltação). De seguida, ele inverte a oposição para demonstrar que sem a receção não existem fatores mitigadores, como ele mesmo afirma. O facto de os planetas estarem agora em “rejeição mútua” é um simples facto de geometria celeste inalterável: não existe nenhuma receção mútua por oposição que não resulte numa “rejeição mútua” quando invertida. Não haveria forma de Masha’allah dar um exemplo diferente. Mas há um fosso gigante entre as afirmações de Masha’allah e a ideia original de que um trígono entre um Júpiter em Balança e um Sol em Gémeos é prejudicado por alguma forma de ódio mútuo.

Tudo isto me levou a pesquisar ainda mais profundamente a questão, até me cruzar com o que acho que são as três peças finais de evidência. A primeira de todas é a própria definição de receção mútua de acordo com a tradição. No seu livro Horary Astrology Re-examined (2009), Barbara Dunn faz um levantamento exaustivo da definição de receção mútua em fontes tradicionais. Ela cita nada mais nada menos do que 9 fontes tradicionais: Masha’allah, Abu Mashar, Al-Biruni, Ibn Ezra, Dariot, Morin, Saunders, Lilly e Ramesey. Todas estas fontes referem a receção como um fenómeno exclusivo das dignidades planetárias e não das debilidades. Ou seja, a utilização generalizada da “rejeição mútua” parece partir de uma confusão conceptual.  Caso alguém se questione se “dignidades planetárias” pode ser um termo que abrange também as debilidades, Ibn Ezra explicita o escopo da receção exaustivamente:

 

“Nota-se receção quando um planeta entra em conjunção ou aspeto com um planeta que é o mestre da sua casa [domicílio], mestre da casa da sua honra [exaltação], o mestre da casa da sua triplicidade, do seu limite [termo], ou da sua face, e recebe esse planeta”. (Ibn Ezra apud Barabara Dunn, 2009, Horary Astrology Re-examined, p.171, minha tradução do inglês).

 

Ou seja, ao numerar as causas de receção uma por uma, Ibn Ezra nunca refere qualquer efeito negativo que tenha origem nas debilidades do planeta.

 

A segunda evidência muito óbvia é a hierarquia de aspetos apresentada por Bonatti no seu tratado de horária. Bonatti dá-nos uma hierarquia cuidada da facilidade de perfeição horária com base na receção de cada aspeto. Não citando exaustivamente o texto, fica aqui um resumo do que ele diz:

Um trígono ou sextil com receção indica que o assunto se realizará com facilidade.

Ligeiramente mais difícil mas ainda fácil com trígono sem receção.

Possível com esforço e entusiasmo com um sextil sem receção ou uma quadratura com receção.

Com entusiasmo, dificuldade e canseira com oposição com receção ou quadratura sem receção.

Quase impossível e com grave arrependimento com oposição sem receção.

 

Bonatti cria uma lógica cuidada entre a natureza do aspeto e a receção. Por exemplo, o sextil sem receção equivale à quadratura com receção porque o sextil é um aspeto bom e não precisa do sustento da receção para funcionar, mas também é fraco, então vai mais facilmente assemelhar-se à quadratura. É impensável para mim argumentar que a “rejeição mútua” pudesse ser um conceito tradicional e o Bonatti se tivesse esquecido de o incluir na complexidade hermenêutica do seu sistema. Especialmente porque não estamos a falar de algo óbvio à primeira vista: um trígono com rejeição mútua é mais ou menos positivo do que uma quadratura com receção mútua? Não me parece que a resposta seja intuitiva nem que Bonatti fosse ignorar a questão caso o conceito fizesse parte da teia hermenêutica da astrologia medieval.

Por fim, a última evidência que encontrei, e a mais convincente, foi um post de um astrólogo no forum do Skyscript. O post pode ser encontrado aqui: https://skyscript.co.uk/forums/viewtopic.php?t=2949. O nome do astrólogo é Andrew Bevan e ele afirma ter cunhado os conceitos de “rejeição” e “deceção” mútua nos anos 80. Estes conceitos interessaram à Olivia Barclay, uma das principais responsáveis pela recuperação da astrologia horária no século XX, que os introduziu no seu livro Horary Astrology Revived. Barclay foi a professora de Frawley, que argumentavelmente escreveu o livro mais popular de horária dos tempos modernos. Ou seja, fica evidente e estabelecida a linhagem moderna que deu origem ao conceito dos anos 80 que se veio a popularizar como uma parte integrante da tradição. A base moderna do conceito é ainda mais evidente se levarmos em conta que a interação entre signo e planeta aqui é entendida como fundamentalmente psicológica, algo tipo de preocupações modernas na astrologia.

É importante reforçar que eu sou, e sempre fui, um anarquista metodológico. Eu faço uso de várias ideias modernas como astrólogo e não acho que uma técnica seja inútil ou errada simplesmente porque apareceu nos anos 80. Acho até que, em vários momentos, esta técnica me deu resultados interessantes. A razão porque esta discussão me importa é uma preocupação de que haja vários pontos artesanais da astrologia que ficaram perpetuamente acorrentados a erros conceptuais que ocorreram durante a recuperação da tradição nos anos 80. Ou seja, é perfeitamente aceitável fazer uso da “rejeição mútua” como conceito, mas é um ponto artesanal importante entender que a noção é moderna e subversiva de ideias tradicionais. Do mesmo modo que um astrólogo que use Urano, Neptuno e Plutão precisa de estar consciente do contexto histórico em que essas simbologias emergiram. 

Desse ponto vista, eu não pretendo fazer uma crítica à compreensão moderna de receção simplesmente porque ela é moderna. Eu próprio faço uso de vários entendimentos modernos como os planetas transpessoais ou a ocasional receção mútua por grau. No entanto, eu acho que devemos sempre avaliar a adoção de técnicas modernas de acordo com dois princípios fundamentais: primeiro, devemos sempre questionar se elas apresentam uma consistência interna válida e em segundo devemos ponderar se elas são produtivas do ponto de vista interpretativo e hermenêutico. É nestes pontos que eu vim a desenvolver alguma alergia ao entendimento moderno da receção. Aquilo que se torna claro a partir dos textos tradicionais que discuti aqui é que antigamente a receção era entendida como uma forma de transferência de poder político semelhante à hospitalidade. Deste ponto de vista, a ideia de “rejeição mútua” não faz sentido porque a receção não representa um estado psicológico de gosto ou desgosto. 

Pensemos num exemplo: Podemos ter três países como a Rússia, a Ucrânia e a Alemanha. A Rússia pode ser inimiga da Alemanha, mas o líder da Rússia não tem qualquer poder positivo ou negativo sobre o líder da Ucrânia se ele for visitar a Alemanha. Podemos dizer que a Alemanha “recebe” o líder da Ucrânia, podemos até dizer que a Alemanha tem uma certa dose de poder sobre o líder da Ucrânia (poderiam, por exemplo, prendê-lo). Mas, independentemente da relação entre a Alemanha e a Rússia, não existe a possibilidade de um recebimento negativo. Ou seja, a Rússia está simplesmente ausente da questão, os únicos países realmente presentes são a Ucrânia e a Alemanha. Passa-se o mesmo com signos: não existe tal coisa como uma receção negativa, porque a negatividade não é uma forma de poder mas sim a sua ausência. Se retirarmos a leitura psicológica da receção, entendemos que na verdade a ideia de rejeição é muito inconsistente de um ponto de vista simbólico. Até porque, em teoria, o líder da Ucrânia não passa a ser inimigo da Rússia só porque está na Alemanha. Ou seja, num trígono entre Sol em Gémeos e Júpiter em Balança nós temos, simplesmente, uma total ausência de receção mas não uma receção negativa. É um trígono igual a qualquer trígono sem receção (estou a ignorar dignidades abaixo da exaltação para simplificar o argumento, mas Júpiter estaria a receber o Sol por triplicidade).

Do ponto de vista da produção de significado eu sempre achei que os entendimentos modernos da receção tinham a desvantagem de “telenovelizar” o mapa um pouco. Se qualquer posicionamento indica potenciais gostos e desgostos é fácil perdermos a interpretação numa análise excessivamente complexa de motivações psicológicas que, por vezes, nem seriam tão adequadamente expressas por posicionamento de signo. Na verdade, a maioria destas informações pode ser mais ou menos inferida a partir da natureza do aspeto que se forma e da receção ou falta dela. Olhar para a Lua em Carneiro e determinar a lista de planetas de quem ela gosta e desgosta é um exercício que com facilidade descarrila a leitura do mapa. São estes dois argumentos que me fizeram alterar a aplicação das receções na minha prática de horária, depois quase uma década a seguir a lógica moderna. A mudança foi gradual e começou em meados do ano passado. Este ano, quando ensinei o meu curso de horária, já alterei os materiais e ensinei a versão medieval. Nos últimos dias fui capaz de finalmente estabelecer a transmissão histórica da fórmula moderna.

Seja qual for o caminho interpretativo que cada um de nós escolha, espero que este texto ajude a clarificar esta tensão técnica para a astrologia de língua portuguesa, e nos ajude a ter uma base histórica mais sólida para a astrologia que praticamos. É natural que novas técnicas emerjam e que se reinterpretem princípios antigos. No fim de contas, o meu estilo de interpretação horária pouco tem a ver com o estilo do Masha’allah. Mas é importante que haja um esforço de revisão constante do nosso conhecimento para que saibamos bem quais coisas têm uma base tradicional e quais coisas foram recentemente acrescentadas. Só assim é que podemos continuar o maravilhoso processo de re-estabelecer a nossa arte e de ouvir as vozes ancestrais de quem nos guia. 

Se quiseres aprender mais sobre astrologia e estudar a tradição de forma profunda e dinâmica, lê mais sobre as oficinas Duranki aqui!

Escrito por Simão Lourenço Ferreira Cortês

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