Sonhos e Astrologia – Caminhos para uma Simbiose Oracular

por | set 11, 2025 | Análise de Mapas, Astrologia Horária | 0 Comentários

Quando eu comecei a misturar sonhos com astrologia, fi-lo simplesmente porque era apaixonado pelos dois temas. Acho que é natural para muitos de nós misturar a astrologia com coisas que nos apaixonam e geram interesse. Isto frequentemente acontece antes de estarmos convencidos da utilidade do nosso trabalho, e é mesmo assim que deve ser. Regra geral, a alma humana é movida pelo amor a alguma coisa antes de se preocupar com a sua utilidade.

Com o tempo, fui entendendo que a aproximação entre sonhos e astrologia está longe de ser uma preocupação exclusiva minha. Desde os feitiços oníricos dos Papiros Mágicos Gregos até à linhagem clara de interpretação de sonhos através da horária na astrologia medieval, podemos ver que a ideia tem encontrado terreno fértil na história da astrologia. Também na modernidade temos astrólogos que demonstram esse interesse, sendo exemplos relevantes o australiano Brian Clark, o brasileiro Gerson Pelafsky, o americano Greg Bogart e a também americana Abigail Joy. Ou seja, apesar de não ser um tema convencional, ele está longe de ser exclusivo de um ou outro astrólogo.

Mas o contacto entre sonhos e astrologia levanta algumas questões de um ponto de vista oracular que nem sempre são fáceis de responder. Uma crítica que eu enfrentei várias vezes em conversa com a astróloga Maggie Hyde, que se especializa em Jung, é o facto de o sonho em si mesmo já ser um presságio, e que utilizar a astrologia em conjunto com esse presságio resulta numa espécie de multiplicação simbólica que não só é redundante, como dificulta a interpretação.

Eu costumo confiar na Maggie para a maioria dos assuntos, mas esta crítica nunca me convenceu. Principalmente porque parece haver uma pulsão natural na prática do oráculo para misturar métodos. Por exemplo, não é incomum em terreiros de Umbanda ver entidades como o Zé Pilintra a ler cartas. Mas a incorporação é, desde a antiguidade, uma forma de oráculo natural – uma das que tem mais pedigree, inclusivamente, como podemos ver pelo oráculo de Delfos. Se o espírito já está presente via incorporação, porque é que precisa de ler cartas?

O professor Gerson Pelafsky apontou-me recentemente para uma literatura que eu desconhecia, que é a utilização que Hephaiston de Tebas faz de astrologia para clarificar a aruspícia, ou seja, a prática de ler entranhas de animais. Hephaiston escreve no século IV da nossa era, e no seu livro sobre Katarche ele inclui toda uma seccção sobre a leitura de entranhas de animais (Capítulo III.6 da tradução de Gramaglia publicada pela Cazimi Press). Na introdução, Benjamin Dykes refere que Hephaiston dava dois papéis principais à astrologia: a eleição de um momento auspicioso para o sacrifício do animal, e a utilização do mapa do momento para amplificar o presságio das entranhas.

Apesar de Hephaiston não nos deixar um mapa de exemplo, ele faz uma associação topológica interessente: O sacrificador recebe a casa 1, o animal sacrificado a 7, o deus ou deusa a quem se sacrifica a 10, e a razão para o sacrifício a 4. Depois faz uma associação entre zodíaco, planetas e diferentes órgãos para que o arúspice saiba para onde olhar no céu dependendo do órgão que se torna relevante.

Ou seja, ainda que seja difícil explicar porque é que esta multiplicação de presságios é útil, ela certamente aparece atestada em diferentes tradições como uma das ferramentas disponíveis para o oraculista. No contexto deste texto quero discutir dois exemplos que talvez nos ajudem a ver na prática como é que o cruzamento entre duas práticas oraculares pode ser iluminador. Mas antes disso, acho importante fazer algumas ressalvas:

Primeiro, é importante fazer algumas distinções relevantes em termos de oráculos, seguindo de perto a terminologia que Geoffrey Cornelius discute na sua tese de doutoramento Field of Omens (2009). Podemos falar de adivinhação natural e adivinhação artificial. A adivinhação natural acontece quando um presságio ocorre sem ser necessário recorrer a uma técnica ou modelo interpretativo específicos. A incorporação é uma forma de adivinhação natural, porque não precisa de uma técnica hermenêutica para fazer sentido. O sonho está no limiar: certos sonhos transmitem diretamente a informação, e nesse caso são adivinhação natural. Sonhos que precisam de ser interpretados já são adivinhação artificial.

Uma outra distinção relevante é a de “presságio pedido” e “presságio espontâneo”. Um presságio pedido emerge no contexto da busca de uma resposta oracular. O querente pede uma resposta à horária, ao espírito incorporado ou ao tarot. O presságio espontâneo aparece independentemente da vontade da pessoa. Por exemplo, ver um animal morto por vezes parece um presságio espontâneo. Sonhos caem, na sua vasta maioria, nesta categoria.

Parte do papel interessante que a astrologia tem para a interpretação de sonhos, é que o sonho é ao mesmo tempo extremamente denso de um ponto de vista simbólico e normalmente ocorre espontaneamente, sem ser pedido pelo sonhador. Na verdade, é interessante notar que em Sahl e Bonatti, a principal preocupação é entender se o sonho é “verdadeiro” e porque é que ele aparece. Ou seja, se o sonho é a resposta a uma pergunta, torna-se urgente encontrar essa pergunta.

“Sonhos Terríveis”, William Lilly, 05/02/1643, 9:42, Londres, Reino Unido

O único mapa concreto que nos chega na tradição astrológica (de que eu estou consciente) está no Astrologia Cristã de William Lilly (livro II capítulo LXXVIII), um livro do século XVII. Neste caso, Lilly não fica apenas pela identificação da causa do sonho, mas usa o mapa para chegar à resolução do problema. Ou seja, seguindo a técnica de Sahl, Lilly associa a causa do sonho ao planeta que esteja presente na 9 ou num ângulo, neste caso Marte. Uma vez que Marte rege e se opõe à fortuna, Lilly assume que o sonho ocorre porque o sonhador tem medo de perder dinheiro. Vendo que a cúspide da 9 é afligida por uma quadratura de Saturno, senhor da 10, Lilly entende que o que está a perturbar o sonho é o conflito com alguém de grande estatuto. No entanto, Lilly utiliza o sextil de Marte (a causa do sonho e regente do querente), Júpiter (regente da 9) e Saturno (regente do aristocrata) como presságio de que tudo vai dar certo e de que a perda financeira não será terrível.

É interessante notar que, neste caso, Lilly age tanto quanto profeta como quanto psicanalista precoce. Lilly está preocupado em entender a razão dos sonhos terríveis que assolam o querente, mas ele chega à conclusão de que não se tratam de sonhos proféticos e sim de sonhos espúrios pela presença do senhor da 9 na neurótica casa 12. Ainda assim, Lilly não descarta o problema: se o sonhador tem sonhos terríveis, então eles devem ter uma razão de existir. O autor identifica então os problemas financeiros como a razão dos sonhos, mas não infere a partir daí que os sonhos pressagiam uma perda financeira, aquilo que o mapa pressagia é a angústia do sonhador. O mapa não está simplesmente a interpretar o que o sonho significa, e sim o porquê de o sonho aparecer. No fundo, a “pergunta” desta horária é “qual é a pergunta a que o sonho responde?”.

Mas Lilly não para por aí. Com a sua ousadia habitual, ele determina que o conflito que levou ao medo do sonhador não vai resultar em danos irrecuperáveis. Tanto Júpiter do sonho e Saturno do aristocrata ofendido estão em sextil a Marte! Existe uma possibilidade de resolução do problema! Aqui o mapa vai onde o presságio do sonho não conseguiu ir, e expõe a resolução da questão.

Ou seja, a horária de Lilly cumpre três papéis oraculares diferentes: o primeiro é estabelecer se o sonho era ou não um presságio. O segundo é estabelecer o significado do sonho. O terceiro é dar resposta ao dilema que levou à emergência do sonho. Antes da horária, tudo o que o sonhador sabia era que tinha pesadelos terríveis, depois da horária ele fica a saber que o seu conflito com o aristocrata não vai resultar numa perda financeira significativa.

Na minha própria prática com sonhos já encontrei vários exemplos de mapas que ajudam a guiar o sonhador para fora do labirinto misterioso que emerge graças ao sonho. Vou partilhar um exemplo aqui em que a relação oracular simbiótica entre sonho e astrologia se torna muito óbvia. Este sonho foi partilhado no contexto de um dos grupos de sonhos que eu dirijo, e a sonhadora deu-me autorização para discutir o seu caso e partilhar os resultados. A sonhadora teve um conjunto de vários sonhos perturbadores, entre eles o seguinte:

“Estou com a minha mãe num lugar que talvez seja um hospital. O meu avô está a ser tratado. Os médicos tentam descobrir o que ele tem, há algo que eles não conseguem entender. Conversam com a minha mãe, ela explica que ele tem uma doença autoimune. O sonho muda mas depois volta pra essa situação, ele foi operado e eu quero entrar no quarto, pergunto se posso. De dentro a minha mãe, tia e mais uma mulher assentem que sim. Elas estão deitadas ao pé de uma cama e no centro há um homem nú que passou por cirurgia. É um amigo meu da adolescência com quem não tenho mais contacto, ele fala comigo calorosamente sobre a cirurgia e diz estar forte para superar a situação. O meu avô está do outro lado do quarto, onde há também outros homens, todos dormem.”

Um dos grandes desafios de grupos de sonhos é que no primeiro momento em que nos encontramos com um sonho novo, há sempre um enorme sentimento de paralisia. Sonhos são sempre misteriosos, a sua interpretação não segue regras definidas como a astrologia, e a sua qualidade é muito mais afetiva. A sonhadora estava visivelmente afetada pelo sonho, mas nenhum de nós tinha nenhuma ideia do que ele queria dizer. Começámos por discuti-lo e chegámos a várias conclusões em conjunto. Por exemplo, é relativamente claro que o sonho joga com ideias de saúde e doença, bem como velhice e juventude. Um outro tema claro do sonho é o contraste entre os homens doentes e as mulheres saudáveis (mas deitadas). Tudo isto é muito pouco, especialmente quando o sonho teve um efeito perturbador. Decidimos olhar para a horária. O que é que o mapa nos diz?

“Sonho Hospital”, 07/10/2024, 19:41, Canterbury, Reino Unido

Vénus é a senhora do Ascendente, está exilada na casa 6. Temos uma confirmação óbvia do sofrimento que o sonho causou e da sua ligação a uma temática de saúde. Uma suspeita que o mapa nos deixa, por ser Vénus que está afligida, é que pode ser algo que tenha a ver especificamente com saúde sexual ou saúde feminina. Imediatamente o mapa não só reflete uma dinâmica do sonho, mas também nos dá informações poderosas para a resolução do problema em questão. O Ascendente está também conjunto a Algol, uma estrela maléfica com a conotação de perder a cabeça. A Lua, que é co-significadora da querente, dirige-se para uma quadratura feia de Saturno, um belo reflexo das imagens de velhice e de doença do sonho. O mapa é claro na expressão da angústia da querente, mas de que forma é que ele ajuda?

Seguindo a técnica de Sahl vemos que o único planeta tradicional angular é a Lua, senhora da casa 3. A querente é filha única então podemos assumir que o sonho vem por uma questão de comunicação. A trama adensa-se. É neste contexto que a sonhadora associa o sonho a algo que lhe aconteceu recentemente: foi diagnosticada com endometriose, e a médica comunicou essa informação com muito pouca empatia e oferecendo muito poucas soluções. A quadratura de Lua com Saturno ganha agora dois novos significados: em primeiro lugar, representa a própria aflição com a ideia de que a doença não tem cura, uma vez que Saturno rege a casa 10 tradicionalmente associada ao medicamento, e a forma violenta como isso foi comunicado, já que a Lua rege a casa 3. Por outro lado, a quadratura passa também a representar a angústia causada pela aproximação do prazo saturnino imposto pela idade quanto à questão de ter filhos.

À primeira vista este julgamento não ajudou particularmente. Na verdade, o mapa parece ser, em geral, bastante inauspicioso. É complicado tirar um bom julgamento de um mapa no qual a Lua se aplica a uma quadratura de Saturno, especialmente estando Saturno na 11 a bloquear os sonhos e expectativas da querente. No entanto, algo no contexto do grupo me dizia que o mapa não era tão negativo assim. Principalmente, a aproximação de Vénus ao trígono de Marte, ambos em signos férteis de água, e sendo Vénus recebida no domicílio de Marte. Há algo que parece extremamente curativo na união por trígono do regente da 1 e da 7 num mapa em que parte da questão é sobre filhos e fertilidade. Parece haver uma dimensão afetiva que mostra o caminho para uma resolução.

O outro testemunho, mais cauteloso para alguém com as minhas simpatias tradicionais, é a conjunção exata de Urano ao Ascendente. Urano, como significador de mudanças radicais e abruptas, sugere que algo de muito inesperado pode acontecer relacionado com o contexto deste sonho. A resolução vem em duas partes, e é iluminadora do papel que o trabalho com a astrologia em grupo teve quanto ao presságio original.

Em primeiro lugar, a sonhadora teve outro sonho:

“Estou em casa com o meu parceiro e há algo lá fora. Eu digo que vou lá eu porque sei o que fazer. Quando saio há dois gémeos, como se fossem crianças angélicas. Eu pergunto o que eles querem de mim e eles mostram-me manchas na sua roupa branca e dizem que é suposto eu limpar.”

Este sonho altera completamente a angústia original, porque a “mancha” nas roupas brancas pode ser limpa pela sonhadora. A ligação com a “impureza reprodutiva” simbólica da forma como a médica comunicou o diagnóstico de endometriose é óbvia. Mas aqui cabe à sonhadora ela mesma fazer esse processo de limpeza, reivindicando para si as suas narrativas sobre saúde e fertilidade, e não estando à mercê da “maldição” da médica, perfeitamente representada pela aflição de Saturno à Lua regente da 3.

Por outro lado, a sonhadora começou uma nova relação apenas um mês depois deste sonho. Essa relação alterou radicalmente as rotinas e planos que ela tinha estabelecido, e colocou as ansiedades em torno do diagnóstico dela para segundo plano. O trígono de Vénus a Marte aperfeiçoa a 18º38’, pouco menos de um grau depois, simbolizando o começo dessa nova relação e a sua contribuição para dissipar este sofrimento.

Neste caso, a resolução do problema não se tornou imediatamente óbvia no contexto da discussão em grupo, mas ainda assim a astrologia cumpriu alguns papéis importantes. Primeiro, indicou a origem do sonho, tal como no exemplo de Lilly. Depois, deu alguma esperança de uma resolução positiva através do trígono da Vénus, e abriu espaço para debates curadores no grupo que vão além do escopo deste texto. O poder positivo da mistura dos dois oráculos torna-se óbvio na chegada de um segundo presságio espontâneo: o sonho das crianças angélicas. Assim, o poder que a astrologia teve de contribuir para a resolução do sofrimento revelado pelo primeiro sonho é demonstrado pela chegada de um segundo sonho. A dança entre presságios é fascinante: O primeiro sonho levanta um problema, a astrologia identifica a origem desse problema e o segundo sonho devolve à sonhadora a agentividade perante o próprio corpo e a própria história.

É neste contexto que vemos algumas tímidas intimações do poder de cruzar oráculos, quando não permitimos que isso resulte numa multiplicação simbólica tão ampla que a precisão interpretativa se torna impossível. Aqui vemos também que o sonho e a astrologia ocupam papéis muito diferentes: o sonho aponta que existe um labirinto, a astrologia ajuda a seguir o fio dourado de Ariadne para fora desse labirinto. É no entrecruzar destes significados que se torna claro o papel soteriológico do oráculo, ou seja, o seu poder em nos libertar das condições que nos aprisionam e de nos levar à boa fortuna.

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Escrito por Simão Lourenço Ferreira Cortês

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