Versão abreviada de uma palestra dada à Philadelphia Association
Por Geoffrey Cornelius
Publicado pela primeira vez no Boletim da Companhia dos Astrólogos, nº 4, primavera de 1991
Disponível no original em: https://cosmocritic.com/wp-content/uploads/2023/12/cornelius_geoffrey_psychoanalysis_divination_astrology.pdf
Um agradecimento caloroso à Maggie Hyde que me deu autorização para traduzir este artigo e o publicar aqui pela primeira vez para um público falante de português.
A warm thanks to Maggie Hyde who gave me permission to translate this text and to publish it here for the first time for a Portuguese-speaking public.
Nota sobre o texto: Este texto é uma versão de uma palestra sobre astrologia que Geoffrey Cornelius deu a uma associação de psicanálise. É um documento histórico notável em que um astrólogo se dirige sem vergonha à comunidade psicanalítica e sugere diversos pontos de contacto entre ambas as disciplinas. No entanto, em vez de cair na típica tentativa de encontrar paralelos diretos para conceitos psicológicos, Cornelius faz uma sugestão muito mais radical: a de que tanto a astrologia como a psicanálise são oráculos que lidam com o desejo humano.
Um tema central que gostaria de abordar é que há um propósito escondido no método, algo partilhado mas que não é normalmente reconhecido, tanto na astrologia como na psicanálise.
Vou começar com comparações entre as culturas astrológica e psicanalítica. A descoberta do inconsciente teve uma influência extraordinária no pensamento moderno. A terminologia do inconsciente é um lugar-comum, tornou-se um truísmo. E isto informa as nossas categorias de pensamento de tal maneira que nós já não pensamos sobre a humanidade fora da estrutura de entendimento estabelecida pelo projeto da psicanálise. É uma coisa quotidiana para as pessoas interpretarem os problemas da infância de alguém como sinalizando o porquê de serem como são agora. Porém, não nos apercebemos por um momento como estamos implicados na teia da teoria psicológica e psicanalítica. Não importa minimamente se esta interpretação quotidiana é um mal-entendido daquilo que os intelectuais formadores de opinião estão a fazer. Esta é a forma através da qual pessoas vulgares se definem a si mesmas e à humanidade. O projeto da humanidade é um projeto psicológico. Durante um tempo, a interpretação marxista conseguiu enganchar-se um pouco, mas isso parece estar a acabar agora, não é? O campo fica aberto para o psicanalítico – este esquema ubíquo para nos discutirmos e nos definirmos, para nos dar ideias de como nos pensarmos a nós mesmos.
Só temos de recuar alguns séculos para descobrir que era dentro do esquema astrológico ou cosmológico que a questão da humanidade era definida. Se forem ler Shakespeare, vão reparar rapidamente nas suas referências astrológicas. Uma parte importante desta imagética será extraída, às vezes com apenas a mais leve alusão, de uma referência cosmológica. Ocasionalmente há um exemplo de terminologia astrológica sofisticada, mas a maioria das vezes é um apelo à noção de uma ordem de “correspondências”, uma grande cadeia do ser, através da qual a humanidade se relaciona com todo o cosmos visível: o homem como medida de todas as coisas, “todas as coisas” sendo literalmente o cosmos. Os humanistas do renascimento, alguns dos quais odiavam certos aspetos da astrologia preditiva, ainda utilizavam como parte da sua discussão a imagem de um homem medido em relação aos céus. Estes pensadores não parecem, do nosso ponto de vista, ser capazes de sair desta metáfora. Da mesma forma que um pensador agora, por mais que tente, não consegue sair da definição contemporânea da psique, do homem psicológico.
Não há muitas definições que agarrem as pessoas, além da psicológica, da religiosa ou da astrológica. Deixem-me enfatizar a significância persistente deste “agarrar” astrológico. Não haverá uma pessoa nesta sala que não sabe o seu signo solar, a menos que tenha nascido no limite de um signo e diga “Não sei se sou Gémeos ou Caranguejo”. Não haverá uma pessoa nesta sala que não tenha, a certo ponto, projetado uma imagem de si mesma em relação à imagem dada por uma das colunas de signos solares nos jornais. Então, apesar do nosso pensamento racional e de grandes avanços, parece que um dos símbolos mais pervasivos através dos quais construímos uma imagem de nós mesmos ainda é o símbolo astrológico. Sob uma camada fina de verniz, proibido, indecente, mas lá, está o astrológico. O psicológico/psicanalítico não o suplantou completamente.
Apesar de estas metáforas ocuparem o mesmo espaço nas suas respectivas culturas, há diferenças óbvias entre elas. A mais importante é que o entendimento moderno da psique desvinculou a imagem da humanidade do seu domínio religioso/espiritual. Uma outra área desconfortável para a definição moderna é a sua localização em relação às ciências naturais. A relação com a “ciência” é complicada para a psicanálise, de uma forma que nunca foi problemática para a astrologia em relação às ciências medievais. A astrologia ocupava um lugar coerente e honrado, integral ao corpo de conhecimento da sua cultura.
Então chego à questão: o que é que a astrologia nos permite pensar sobre nós mesmos? E como é que isso ainda é tão poderoso e persistente para as pessoas hoje?
Vou dar-vos uma definição da astrologia que se move na direção desta questão. Esta definição será sem dúvida inesperada e, na verdade, algo provocadora para uma audiência de psicanalistas. A astrologia agarra-nos porque é uma interpretação do desejo humano. Mas vou frasear isto de forma mais precisa: a astrologia é a hermenêutica do desejo*.
Nesta cultura astrológica mais antiga, as pessoas caracterizam-se em termos dos planetas. Elementos do nosso vocabulário baseiam-se diretamente em referências planetárias e cosmológicas: os temperamentos jovial, marcial e saturnino, falar do zénite de alguém, falar filosoficamente do “horizonte” do nosso entendimento. Mas onde é que entra o desejo?
Talvez saibam que a palavra “considerar” vem do latim, “considere”. Isto significa “juntar algo com as estrelas”. Toma-se alguma coisa em conjunto com as estrelas. Isto vem de um período arcaico em que se acreditava que o que é mostrado à humanidade pelos deuses é revelado de diversas formas, mas as estrelas eram pre-eminentes como o meio pelo qual o inefável se manifesta, ou através do qual podemos buscar compreensão. Esta era uma época em que se acreditava que o significado das coisas reside, de alguma forma, no mistério de todo o cosmos visível. Os céus imensos e inalcançáveis, aí tem de estar o mais profundo mistério. É aí que o deus fala, então para ver como o deus fala: considera.
“Desejo” talvez tenha uma etimologia mais interessante. É primo de “considerar”. A palavra vem do latim “desiderare”**, e refere-se àquilo que vem das estrelas, ou tem a ver com elas. “De” aqui não significa apenas “sobre”: implica uma falta, ausência ou origem. Desejo é aquilo que emerge quando somos do cosmos, o nosso desejo é para o cosmos, aquilo que nunca conseguiremos alcançar mas que consideramos para o nosso significado: todo o cosmos visível, o mundo. E isso é desejo no seu significado pagão original.
Sabemos que uma palavra é poderosa quando a igreja primitiva se apropria dela. A palavra é poderosa porque as desiderata, “as coisas que devemos desejar”, são um nome antigo usado para os mistérios da Eucaristia. O cristianismo assimila a cultura astral e a adivinhação pagãs no seu próprio modelo e sublima-as eficazmente, ou reprime-as. O mistério celestial torna-se naquilo que é trazido por Cristo na comunhão com Ele, onde acontece uma transubstanciação do corpo celestial para o corpo concreto, o pão que é comido. E aquilo que está nas estrelas é agora conhecido a partir de Cristo. Essa assimilação mostra e simboliza a redefinição cristã do mistério do Desejo obtido através da paixão de Cristo. Isto, por sua vez, funda a imagem da humanidade na civilização cristã.
O mistério, o “desejo”, sublima-se ou reprime-se ainda mais na “psiquiatria dinâmica” moderna. Ellenberger sugere que podemos tomar como a origem da psiquiatria moderna o momento em que Mesmer mostrou que podia fazer as suas conversões magnéticas tão bem quanto um exorcista famoso do seu tempo. Ele era capaz de produzir os mesmos fenómenos sem invocar Cristo. Este ponto marca a mudança na cultura europeia em que o mistério deixa de ser sagrado. Inaugura a expansão da psique secular que nos é dada pela psicanálise. Pergunto-me para onde foi o mistério? O desejo converteu-se a uma forma secular mas a questão é a mesma. A consideração mais profunda possível que podemos abordar na filosofia moderna ou na psicanálise não é mais profunda do que a questão formulada pelos idólatras astrais pagãos de 100 ou 200 a.C. ou antes, não é mais profunda. Somos todos seres humanos. Então, é com base nisto que falo convosco como astrólogo. Eu penso que lidamos com as mesmas coisas mesmo que à primeira vista não pareça. Eu acho que nos preocupamos com o mesmo de-sejo, não é?
Vou passar agora à segunda parte da minha discussão, que vai permitir seja dada uma forma mais bem definida à questão que a astrologia tem para colocar aos psicanalistas. Para conseguir isto, vou invocar o pólo sofisticado da astrologia, o seu trabalho prático de interpretação de horóscopos. Uma analogia com a psicanálise vai ajudar a explicar porque é que isto é necessário. Para revelar a diferença entre a psicologia e a psicanálise podemos apontar para esta última como radicada numa forma de prática dinâmica, que lida com o particular e o individual, em contraste com a abstração teórica das leis psicológicas. Tal como a psicanálise está para a teoria psicológica, a horoscopia, a astrologia prática e concreta de casos individuais, é uma aplicação dinâmica de uma teoria cosmológica muito mais ampla.
O horóscopo é um mapa da aparência do céu como visto de um certo ponto da superfície terrestre a um certo momento. É direto e literal na sua representação. O céu acima é a parte de cima do círculo do horóscopo, e o céu abaixo e tapado pelo horizonte é mostrado pela parte inferior do círculo. É realmente uma representação fenomenológica do mundo. Há uma qualidade de quatro camadas que vai atrair aqueles de vocês que conhecerem Heidegger: temos aqui o símbolo da terra, do céu, dos deuses (os planetas) e o mortal que habita no centro disto, a olhar para esta estrutura. O horóscopo é este símbolo.
Há algo de tão inexplicável e ainda assim tão primordial para nós. Nós vivemos na terra, debaixo do céu, e experienciamos o dia e a noite e o ciclo, e fazemos isto desde que fomos atirados para a existência num momento de origem no tempo e no espaço. É isto que a astrologia tenta revelar. Habitar na terra, debaixo do céu, com uma ordem das coisas notável e maravilhosa, pontos de fogo num padrão misterioso que eleva sempre a alma. Não importa o que se tenta fazer com ela, a contemplação desta imagem exalta sempre em nós a emoção primordial de uma subida na direção do céu. Isto é parte da própria astrologia.
Vou agora mostrar-vos um pouco de astrologia. Não estou a apresentar isto como um caso terapêutico, e não estou aqui a sugerir que o trabalho de um astrólogo seja como ver um paciente em psicoterapia. Mais simplesmente do que isto, a minha preocupação é a questão partilhada da interpretação.
Aqui está uma historieta. Um verão, no país de Gales, um amigo astrólogo e eu olhamos para o horóscopo de uma mulher que estava numa crise por questões amorosas, e que estava incerta do seu rumo na vida – soa-vos familiar? Queria que olhássemos para o seu horóscopo para ver o que estava errado na sua vida. Isto é o que as pessoas normalmente querem quando trazem os seus horóscopos para olharmos para eles. Gémeos está no ascendente no horóscopo dela. Mercúrio está “afligido” neste horóscopo. Está retrógrado e oposto por um poderoso Saturno exaltado. Mercúrio é o planeta da linguagem e da comunicação. Como um detalhe confirmador, olhamos para a casa 3 que se relaciona com Mercúrio: Plutão na cúspide e o Nodo Sul, a Cauda do Dragão, lá posicionados. Começamos a ver uma consistência aqui.
Esta senhora tinha um pequeno problema na sua dicção, nada de especial, mas claro que é uma pista. À luz do seu horóscopo apanhamos este detalhe, juntámos dois mais dois, e dissemos uma coisa de manual: um “problema de comunicação”. Banal ou não enquanto interpretação, pasme-se!, era verdade e a história foi clarificada em pouco tempo. Ela tinha tido problemas chatos em criança porque era lenta na escola e era vista como estúpida. Não foi até à adolescência que foi diagnosticada como sendo surda de um ouvido. Isto é uma aflição saturnina clássica. Alguns astrólogos seriam espertos que chegue para apanhar isso diretamente no mapa, mas eu não sou assim tão bom. Na altura, o que nós vimos no mapa antes de ela nos contar a sua história foi: “um problema de comunicação”. Isso chegou.
A configuração de Mercúrio liga-se a uma quadratura em T a Urano na casa 1, identificando-a pessoalmente com uma veia rebelde. Ela era rebelde de uma forma modesta, uma rosa inglesa de classe média alta que acabou a viver em circunstâncias degradantes na costa norte do país de Gales. Tinha rejeitado os valores do seu pai. Ele era um típico funcionário público numa posição alta. Assumi que a sua relação com o pai estivesse a constelar-se aqui. Talvez isto seja mais uma banalidade, roubada à psicologia, mas tudo o que faço como astrólogo é necessariamente influenciado desta forma. Então esta quadratura em T cardinal vai levar a um comportamento errático da parte dela enquanto ela tenta gerir a restrição terrível de que não está a ser ouvida e não está a ouvir, algo que talvez tenha a ver com o seu pai.
No entanto, a astrologia consegue oferecer testemunhos – ainda de forma mais exata. A oposição de Saturno a Mercúrio cai no eixo parental no horóscopo (as casas quatro e dez). Como astrólogo, posso dizer que sim, a interpretação “psicanalítica” sobre o pai dela provavelmente está correta, porque o eixo parental aparece envolvido. Talvez ela não consiga estar à altura dos ideais do seu pai: Saturno em Balança, exaltado, padrões muito altos.
Há um trígono daquele Urano desajeitado e rebelde a um Marte poderoso, em Escorpião na 5. Ela vai encontrar algum alívio da situação toda através daquele Marte. Isto é um julgamento fácil para um astrólogo: é sexy, e provavelmente um homem. Temos um símbolo masculino num signo sexy (Escorpião), e está na área sexy do horóscopo (a casa 5). Além disso, a casa 7 do horóscopo, representante do Outro, é aqui governada por Júpiter, senhor de Sagitário que abre essa cúspide. Este Outro tem uma imagem tremenda no horóscopo dela, algo como um ideal, na cúspide da sua 11, junto com o seu Sol em Carneiro. Como Carneiro é regido por Marte, voltamos a Marte. Ela vai encontrar o Outro significativo aqui, através deste Marte.
Mesmo antes da altura em que falamos, ela tinha começado uma relação bastante desastrosa com um homem que era um nacionalista galês. Ela estava a tentar aprender galês, e ele falava com ela em galês e esperava que ela tentasse responder em galês. Então sentimos que este assunto de não ouvir e não ser ouvida está a ser repetido, não é? Lembrem-se do tema Carneiro, regido por Marte, potente e letal no seu outro signo, Escorpião. Isto vai mostrar o Outro. E o homem de que estamos a falar tinha a alcunha de “Red” (vermelho). O seu homem era um homem vermelho, era um homem de Marte. Quando os nossos caminhos se cruzaram eu aprendi a manter a minha distância dele. Eu sou um menino da cidade, e não estou habituado a estas coisas, percebi que os patos no jardim não eram só para ovos, eram para o jantar com os pipos torcidos. Um dia vi-o casualmente com um revólver que estava a limpar.
É desta forma que sabemos através da nossa astrologia. Não é uma questão de influência geral ou predisposição de caráter. O simbolismo aparece diretamente manifestado nas pessoas, nos seus nomes, nas suas cores, tal como nas suas personalidades.
Há duas coisas que é importante perceber aqui. O exemplo que descrevi não vos deve levar a concluir que cada detalhe da vida desta pessoa poderia, em princípio, ser-me revelado. Tudo o que temos é esta história que nos foi dada na altura em que por acaso estávamos a olhar para o mapa dela, a história pertinente para ela, portanto. Isto é a história que ganha vida no horóscopo.
A segunda questão diz respeito à técnica na astrologia. Quando um astrólogo acredita ter uma interpretação plausivelmente correta, então isto deveria aparecer no tempo. Se esta mulher está com este homem marcial agora, isto deve aparecer agora e não há dois anos ou daqui a dois anos. Na verdade, na viragem do ano o seu Sol tinha “progredido” para 16º15’ de Touro, oposto a Marte. Além disso, no fim da primavera desse ano, mais ou menos quando estava a começar a relação, o Júpiter em trânsito tinha chegado a esse eixo, mais uma vez por oposição. O mapa está a identificar no tempo a significação que já vimos. Isto é um método correto na astrologia tradicional para garantir que a nossa interpretação é plausível. Desta forma, limitamos a amplificação simbólica selvagem, um erro demasiado fácil de cometer.
Quando uma disciplina, um processo artesanal, é seguido, permitimos que a astrologia se revele nestas pertinências únicas, como no caso que discutimos. Para lá destas erupções de simbolismo vivo, o astrólogo é insensato ao especular. Para além do que lhes foi mostrado diretamente, o que é que há para o astrólogo dizer?
Existe uma grande corrupção da nossa tradição, que ainda está connosco na astrologia moderna. Isto é a generalização totalizante que nos afasta da forma maravilhosa como o símbolo se revela nestas particularidades. Há uma atitude falaciosa que imagina que, de alguma forma, se ao menos tivéssemos a técnica certa, a interpretação poderia ser estendida tão longe quanto quiséssemos, como se houvesse em todos os lugares a todos os momentos uma espécie de máquina de símbolos. Esta atitude não se alinha com a experiência prática. Mas eu também admito que muitos astrólogos sentiriam que não estou propriamente a fazer justiça à disciplina, porque a astrologia deveria revelar-se a todo o momento, de forma a que todos os factos importantes da vida de alguém pudessem ser mostrados através da astrologia. Mas não é assim.
Vou agora virar-me para uma comparação com a questão da interpretação em psicanálise. Como é que as coisas vêm à tona em psicanálise? Uma cliente diz coisas, e o que vem à tona é frequentemente o produto de um sonho ou de um lapso da língua. São estes produtos do irracional que são “interpretados”. Assumo que este método freudiano clássico ainda seja parte da substância da vossa prática. Vocês psicanalistas não precisam de me dizer que tem havido muita crítica filosófica da base desta interpretação. Será que o facto de um método de “associação livre” levar a revelações confirmadas pelo analisando implica que realmente existe um certo mecanismo pelo qual uma certa repressão foi conduzida por canais estreitos e deterministas até um certo lapso da língua? Esta posição de Freud é tema de um grande debate, e não é de todo claro que isto tenha sido estabelecido convincentemente. Então o projeto da psicanálise nesse sentido fundamental das interpretações do Freud ainda está longe de ter sido assegurado por quem quer que seja, continua a ser uma questão de fé. No entanto, este método parece funcionar e ele – ou o analista – produz bons resultados.
A crítica da psicanálise de Timpanaro é útil para vos trazer um certo dilema. [Sebastiano Timpanaro: The Freudian Slip – O Lapso Freudiano]. Ele ocupa-se a desconstruir os exemplos de Freud da Psicopatologia da Vida Quotidiana. Por exemplo, nas associações “aliquis”, pode-se argumentar que quaisquer das palavras do verso de Virgílio poderiam, por associação, ser levadas de forma significativa o suficiente a produzir o resultado que Freud queria. Freud escolheu um “lapso”, mas palavras que não vêm de um lapso podem ser levadas a produzir o mesmo resultado! Noutras palavras, as associações psicanalíticas são essencialmente arbitrárias. Há muitos anos houve um ataque semelhante contra Freud de um investigador chamado Schneider, que experimentou em si mesmo e nos seus sujeitos usando o método da “associação livre” a partir de números produzidos aleatoriamente. Ele demonstrou que o padrão de associação derivado assim parecia demonstrar porque é que aquele número tinha de ter sido produzido – como se o número aleatório, tal e qual uma imagem de um sonho ou um lapso da língua, fosse determinado psicologicamente. Schneider toma por garantido que o número aleatório não pudesse ter uma ligação com a situação psicológica do sujeito. Wittgenstein fez uma observação semelhante quando disse que se tomarmos qualquer conjunto de objetos aleatórios numa mesa, seríamos capazes de, através deste mesmo processo de associação, produzir a partir deles o padrão de uma história significativa, como se os tivéssemos “inconscientemente” arrumado naquela ordem.
Há uma comparação reveladora no meio de tudo isto. Timpanaro diz que poderíamos ter o mesmo resultado a partir da quiromancia. Um bom quiromante vai começar uma linha de raciocínio com alguém que vai conduzir a uma revelação. Isto pode ser confirmado pela cliente, e pode comovê-la. E, claro, isto não valida o método da quiromancia, que é claramente assumido como arbitrário. Sempre que a imagem da adivinhação entra em jogo, assume-se que isso seja o fim do argumento. A adivinhação não é real, consequentemente mostrar que algo é equivalente à adivinhação significa que não há nada mais a dizer. Ninguém envolvido na discussão, incluindo Freud, imagina com seriedade que haveria algo mais a discutir.
Levanto a questão da “arbitrariedade” porque os fenómenos produzidos pela astrologia são de facto da mesma ordem, num sentido fundamental. Claro que alguns astrólogos vão tentar dar-vos um sistema higienizado e diluído através do qual as estrelas “influenciam” de alguma forma. Querem agarrar-se a um “efeito real” por contraste a um ato “meramente arbitrário” de interpretação subjetiva. Isto é impossível. Não há nenhuma forma convincente de imaginar o sistema através do qual um tipo chamado Red (vermelho) é produzido, e ainda assim os símbolos estão realmente a mostrar-se ao ponto de inferências inteligentes e previsões poderem ser feitas. No entanto, a ideia de mecanismo pode ser tão facilmente desmascarada que o astrólogo inteligente se liberta (ou deveria libertar-se) de reduções positivistas do fenómeno.
O que é este fenómeno? É muito misterioso. Não posso dar-vos respostas nenhumas, mas posso dar-vos uma grande pergunta. O fenómeno a que estamos a chegar é algo de bastante extraordinário. Parece que no ato da consciência e no ato da interpretação são revelados padrões significativos de entendimento que têm valor de verdade, valor real no mundo real, mas onde não podemos encontrar uma “causa”, nenhuma função mecânica, biológica ou fisiológica que tenha ordenado racionalmente o seu aparecimento na realidade. Esta é a ordem de conhecimento da humanidade a que chamamos adivinhação. Então a questão que vos coloco tem que ver com a parte do método da psicanálise onde acontece a leitura, simbólica ou metaforicamente, da ocorrência de algo que é essencialmente aleatório. Tomada de forma inteligente por alguém a observar e a escutar no momento certo, parece que ela leva a um entendimento verdadeiro. A revelação é devolvida à pessoa por quem foi originalmente expressada. Isto, em qualquer cultura, chamar-se-ia adivinhação.
Há algo que me choca na nossa cultura, uma repressão extraordinária. Práticas formais de adivinhação são utilizadas por muitos, muitos homens e mulheres inteligentes. Vamos encontrar um pouco destas práticas entre vocês. Num grupo como o nosso, muitos de nós terão utilizado práticas de adivinhação técnicas e sofisticadas para decisões que importam. Para nós isto terá sido provavelmente o I-Ching, o Livro das Mutações, mas também poderá ter sido o Tarot. Até aqueles de nós que não fazem tais coisas estarão familiarizados com pessoas inteligentes que as fazem. E no entanto, a nenhum ponto essa prática, as suas implicações e o seu entendimento entram no debate filosófico e académico. É tão impronunciável, não há nenhuma base a partir da qual possamos falar dela.
Agora, de todas as pessoas são os psicanalistas quem está mais perto deste fenómeno. É por isso que lhes estou a perguntar se a metáfora da adivinhação poderia ser útil e poderosa para certos dos passos que dão em termos do seu entendimento.
Parece que Freud cheira, inala e fareja isto. Há uma bela discussão no livro de Bruno Bettelheim Freud and Man’s Soul (Freud e a Alma do Homem) sobre a tradução do título da grande obra do Freud Die Traumdeutung – A Interpretação dos Sonhos. Freud escolhe a palavra “deutung”, que não é diretamente “explicação” no sentido científico. A analogia mais próxima em alemão é “sterndeutung” – astrologia. Em alemão, a palavra usada por Freud ressoa com a ideia da “interpretação adivinhatória” dos sonhos, tal como sterndeutung é a interpretação adivinhatória das estrelas. Esta ressonância existe, e Freud parece querer que exista.
A atitude de Freud quanto a estas coisas é ambígua, mas mesmo esta ambiguidade é verdadeira. Freud está pegar num dos métodos adivinhatórios da antiguidade, a interpretação de certas imagens espontâneas que ocorrem em sonhos, através das quais ele tenta revelar uma verdade mais profunda. De todo um complexo de razões ele valida estas interpretações a partir de um conjunto específico de teorias. Ele faz isto de forma brilhante, e a partir desta teoria ele permite uma prática através da qual sonhos são interpretados. Então, vocês psicanalistas estão a fazer isto. Dizem que estão a fazê-lo por causa deste ou daquele detalhe da teoria, mas estão a fazê-lo, die Traumdeutung. Isso é imensamente admirável. Mas entendem porque é que eu pergunto se isto não é uma prática mântica disfarçada por trás de muita racionalização? Será que a fenomenologia da adivinhação está no cerne da questão?
Nós astrólogos interpretamos símbolos metaforicamente. A base inteira da adivinhação é a metáfora. Um estudo da adivinhação no Antigo Testamento mostra como tudo depende de jogos de palavras: profecias e adivinhações são sempre sobre duplos sentidos, a matéria prima da psicanálise. A palavra “metáfora” vem do grego. A tradução latina para metáfora dá-nos a palavra “transferência”. Transferência é metáfora. Se eu disser que como parte da minha prática “eu estabeleço uma situação, um certo espaço, onde um processo metafórico vai ocorrer com o propósito de revelar”, por oposição a “eu estabeleço uma situação analítica onde um fenómeno de transferência vai ocorrer”, não estou a falar de algo muito semelhante? O analista e o astrólogo ocupam-se das transferências de significado que ocorrem em situações diferentes. Ambos leem essas transferências, leem-nas como metáforas. Para ver isto com clareza precisamos de ultrapassar o conceito moderno, e bastante fraco, de metáfora. Frequentemente temos um conceito de metáfora como algo que é como outra coisa. O que eu quero evidenciar é a metáfora visceral, como a transubstanciação na Missa. Aquela coisa É a coisa que representa. Acredito que partilhamos este fenómeno até certo ponto. Por isso pergunto se a “adivinhação” poderá ser uma metáfora fértil para a prática da psicanálise.
Graças à repressão moderna da adivinhação, as mensagens que recebemos da maioria dos astrólogos vão dar-nos uma impressão completamente errada. O que os astrólogos dizem que é a sua disciplina e a prática concreta são duas coisas completamente diferentes. Os astrólogos normalmente descrevem a sua disciplina tão mal que vão afastar qualquer pessoa pensante. Alguns de nós tentam pensar sobre estas coisas. Mas somos um pequeno rangido nas margens da astrologia convencional. Dificilmente podemos ser considerados representativos. Temos de fazer braço de ferro com os astrólogos nossos colegas para os fazer ver que a astrologia tem alguma relação significativa com a adivinhação. Parte do nosso trabalho é libertar a astrologia de um falso positivismo, para revelar uma fenomenologia da adivinhação. Isto levanta uma questão extraordinária para todos nós, incluindo psicanalistas. É nesse ponto que o astrólogo talvez tenha algo para vos dizer.
*A “Hermenêutica do Desejo”: Foi a insistência de Vernon Wells na importância da etimologia de “desejo” que me lançou no caminho para algumas comparações feitas aqui. “Desejo” no seu sentido mais profundo é bem simbolizado pelo Sol no horóscopo, a “nossa estrela”, uma interpretação que foi sugerida pela primeira vez por Gordon Watson. O horóscopo que usei como exemplo não foi escolhido propositadamente para este fim, mas parece altamente sugestivo de leituras psicanalíticas de “desejo”.
** Nota de tradução: A etimologia de desejo em português é mais duvidosa, e provavelmente vem de “desidia”, uma palavra associada à ideia de devassidão. Mas a parecença de desidia e desiderare sugere que ambas as palavras tiveram pelo menos uma evolução paralela para o português. “Desire” em inglês terá entrado por via de “désir” em francês, e terá de facto origem em “desiderare” como o autor diz.




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